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    O PAÍS QUE ESQUECE DE SI MESMO

    Fernando KopperFernando Kopper9 de março de 202604 Mins Read6

    Por: João Victor C. dos Santos, estudante de ciência política e história. Fundador e líder do grupo Barões da Restauração. Mantenedor do site Brumas do Passado.

    Desde que mudei de cidade, partindo morar numa região mais populosa e ativa economicamente, tenho observado e aprendido bastante sobre nossa capacidade de ser e produzir nesse país. Um aspecto que tem me chamado particular atenção é o valor que a cultura recebe em algumas cidades e/ou governos, se comparado a outros locais.

    Até o momento em que escrevo este artigo, desde que mudei de cidade há 2 meses, já participei de ao menos 3 espetáculos, e visitei vários locais que, várias vezes por semana, tem apresentações, encontros ou eventos para todos os tipos de gostos culturais. E apesar disso, muitos ainda falam que é pouco o que se investe, quem me dera se 10% disso fosse comum aos outros municípios. Isso nos faz refletir sobre a forma como a alma da sociedade brasileira está sendo formada e/ou protegida; afinal a cultura é o cerne de qualquer civilização ou sociedade, seja ela traduzida na música, literatura, teatro etc.

    A palavra “cultura” se tornou tão polarizada quanto o próprio país. Usada muitas vezes em campanhas e propostas políticas, em geral há um antagonismo claro em cada parlamentar ou governante sobre a validade ou utilidade de se pautar cultura. E vemos esse reflexo na população geral, que ao mesmo tempo lamenta o Incêndio do Museu Nacional e desdenha da iniciativa de um historiador em restaurar os túmulos de grandes escritores brasileiros. Às vezes me pergunto se regredimos como sociedade, porque não parece que avançamos muito se comparado à outros momentos da nossa história.

    É importante perceber como essa negligência cultural não nasce do nada. Ela é fruto de décadas de uma relação ambígua do Brasil com sua própria memória. Somos um país que celebra o novo sempre com entusiasmo, mas que trata o antigo como um peso morto, como se tivéssemos que começar tudo do zero a cada nova geração, tratando a história como um incômodo e não um patrimônio.

    Qual a consequência dessa atitude? A cultura tratada como supérflua, distante e até elitizada e inacessível, dependendo do caso. Mas isso não acontece porque a cultura seja naturalmente assim, e sim porque ela foi deixada à própria sorte. Onde não há investimento, não há continuidade; onde não há continuidade, não há pertencimento, e sem pertencimento não existe identidade ou memória.

    Talvez seja por isso que me impressionei tanto com uma região que dá mais valor e espaço a atividade cultural: não porque são espetáculos grandiosos ou porque capta celebridades, mas porque existe uma sensação de que a vida comum deve ter algo maior do que o cotidiano de trabalho ou descanso. Quando a cultura é mantida viva, ela nos dá um senso de coletividade, que nos lembra que não somos isolados no tempo e espaço, mas que fazemos parte de uma narrativa que começou antes de nós e continuará depois.

    Não se trata apenas de ter teatros, museus ou centros culturais, trata-se de entender que a cultura é um serviço essencial, tão estruturante quanto saúde e educação. Sem ela, perdemos a capacidade de imaginar, de interpretar o mundo e de nos reconhecer como sociedade. No fim das contas, talvez o grande desafio do Brasil seja esse: não apenas financiar a cultura, mas reconhecer-se nela.

    Enquanto tratarmos nossos museus como depósitos, nossos artistas como supérfluos e nossa memória como um luxo, continuaremos condenados a repetir a sensação de que estamos sempre começando do zero. Cultura não é um mero ornamento: é infraestrutura emocional, intelectual e simbólica de um povo.
    Porque um país que não cuida da própria cultura não perde apenas seu passado; perde também qualquer possibilidade real de futuro.

    Fernando Kopper

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