Depois de anos lutando contra a seca, o produtor gaúcho pode enfrentar o desafio oposto: o excesso de água. E ele pode atingir não apenas o Rio Grande do Sul, mas grande parte da agricultura mundial.
Nos últimos meses, os principais centros internacionais de monitoramento climático vêm acompanhando a formação e o fortalecimento do fenômeno El Niño. Embora a intensidade final ainda dependa da evolução das condições oceânicas e atmosféricas, muitos especialistas já trabalham com a possibilidade de um evento forte ou até muito forte durante o ciclo agrícola 2026/2027.
Para a agricultura, essa notícia merece atenção.
Não porque a chuva seja ruim. Pelo contrário. A água é o principal insumo da produção agrícola. O problema surge quando ela vem em excesso e no momento errado.
O risco não é apenas para o Rio Grande do Sul
O El Niño é um fenômeno climático global. Suas alterações na circulação atmosférica modificam os padrões de chuva e temperatura em diversos continentes.
Enquanto algumas regiões enfrentam secas severas, outras convivem com enchentes e volumes extremos de precipitação. Isso significa que o fenômeno pode afetar simultaneamente a produção de grãos na América do Sul; as lavouras de arroz e outras culturas na Ásia; a pecuária e a agricultura da Oceania; as monções na Índia; importantes regiões agrícolas da África e da América do Norte.
Não são apenas soja, milho e trigo que estão em risco. Fruticultura, horticultura, café, cana-de-açúcar, pecuária de leite e de corte, avicultura e suinocultura também podem sofrer impactos diretos e indiretos.
Quando grandes regiões produtoras são atingidas ao mesmo tempo, o resultado costuma ser aumento da volatilidade dos mercados, problemas logísticos, elevação dos custos de produção e pressão sobre os preços dos alimentos.
O inverno gaúcho pode ser o primeiro grande teste
No Rio Grande do Sul, as culturas de inverno podem ser as primeiras a sentir os efeitos do fenômeno.
Trigo e canola dependem de um equilíbrio climático delicado. Chuvas frequentes e excessivas favorecem doenças, dificultam a entrada de máquinas nas lavouras e podem comprometer a qualidade dos grãos.
Entre os principais riscos estão o atraso no plantio, o encharcamento do solo, maior pressão de doenças fúngicas a redução do período disponível para tratos culturais as dificuldades na colheita, as perdas de produtividade e a redução da qualidade industrial dos grãos.
Em culturas como o trigo, a qualidade muitas vezes é tão importante quanto a quantidade produzida. Um grão que perde suas características pode sofrer deságio comercial significativo.
O desafio pode continuar na safra de verão
Se as projeções climáticas se confirmarem, os efeitos poderão se estender para a safra de verão 2026/2027, o milho e a soja poderão enfrentar atrasos na semeadura, a necessidade de replantios, a redução da janela ideal de plantio, as dificuldades na aplicação de fertilizantes e defensivos, o aumento da incidência de doenças, atraso na colheita e perdas quantitativas e qualitativas.
As áreas mais baixas ou com limitações de drenagem podem ser as mais afetadas.
Depois de vários anos em que o maior temor era a falta de chuva, o produtor gaúcho poderá enfrentar um problema diferente: a impossibilidade de trabalhar a lavoura por excesso de água.
O perigo está na concentração das chuvas
Existe um aspecto técnico extremamente importante.
O problema não é apenas quanto vai chover, mas como essa chuva será distribuída.
Se grandes volumes forem bem distribuídos ao longo dos meses, o solo consegue absorver boa parte da água e as culturas podem se desenvolver normalmente.
O risco aumenta quando ocorrem eventos extremos, como a ocorrência de precipitação de 200 ou 300 milímetros em apenas dois dias, ou, um acumulado de 500 a 700 milímetros em um único mês, ainda, as sucessivas frentes chuvosas sem tempo para o solo drenar.
Nessas condições, a capacidade de infiltração é superada, provocando enchentes, erosão, perda de solo fértil, destruição de estradas e pontes, assoreamento de rios e açudes, interrupção das operações agrícolas, prejuízos às lavouras e à pecuária.
Alguns cenários climáticos discutidos por especialistas indicam que, entre setembro de 2026 e maio de 2027, determinadas regiões do Rio Grande do Sul poderão registrar precipitações muito acima da média histórica.
Caso esses volumes ocorram de forma concentrada, os impactos podem ser extremamente severos.
O solo gaúcho também está mais vulnerável
Outro fator pouco debatido é a condição atual dos solos.
Após anos consecutivos de estiagens, enchentes e dificuldades econômicas, muitas propriedades reduziram investimentos em correção, fertilidade e recuperação da estrutura física do solo.
Solos compactados ou com baixos níveis de matéria orgânica possuem menor capacidade de infiltração e retenção de água.
Na prática, isso significa que uma chuva extrema hoje pode produzir danos ainda maiores do que produziria em um solo estruturalmente equilibrado.
Uma crise que vai além das lavouras
Os impactos não ficam restritos ao campo, quando a agricultura sofre, toda a economia regional sente os efeitos e podem ocorrer a redução da renda dos produtores, o aumento da inadimplência no crédito rural, dificuldades para cooperativas e cerealistas, prejuízos para agroindústrias e transportadoras, queda na movimentação do comércio local e redução da arrecadação dos municípios.
No Rio Grande do Sul, esse risco é ainda maior porque o setor agropecuário chega a esse novo ciclo bastante fragilizado.
Muitos agricultores ainda enfrentam as consequências financeiras de sucessivas estiagens, enchentes, baixa rentabilidade e elevado endividamento.
O mundo está mudando e o agro precisa se adaptar
Talvez a maior lição dos últimos anos seja que a agricultura entrou em uma nova fase.
Os eventos climáticos extremos parecem cada vez mais frequentes e intensos.
Isso faz com que o gerenciamento do risco climático seja tão importante quanto a própria tecnologia de produção.
Investimentos em conservação do solo, drenagem, irrigação, manejo da água, seguro rural eficiente, crédito adaptado aos eventos extremos e políticas públicas de mitigação passam a ser fundamentais para garantir a sustentabilidade da atividade agropecuária.
Uma possível consequência positiva: a valorização dos preços agrícolas
Embora um evento climático extremo represente enormes riscos para a agricultura, existe um aspecto econômico que também merece atenção.
Se o El Niño provocar perdas significativas em importantes regiões produtoras do mundo, reduzindo a oferta global de commodities agrícolas, a tendência natural do mercado é uma reação nos preços.
A lógica é simples: quando a produção diminui e a demanda mundial permanece elevada, os estoques ficam mais apertados e os compradores passam a disputar um volume menor de produto disponível.
Nesse cenário, culturas estratégicas como soja, milho e trigo podem apresentar valorização nos mercados internacionais.
Para o Brasil e, especialmente, para o Rio Grande do Sul, isso poderia representar uma oportunidade de recuperação econômica, desde que a produção local consiga escapar dos efeitos mais severos do fenômeno climático.
No entanto, existe um grande paradoxo na agricultura.
O mesmo evento climático que pode elevar os preços pode também reduzir a produção. Ou seja, o produtor pode colher menos justamente em um momento em que o mercado estaria pagando mais.
Por isso, o melhor cenário para o agricultor gaúcho seria aquele em que o Estado sofresse impactos menores que os seus principais concorrentes internacionais. Nessa hipótese, haveria possibilidade de combinar uma boa produção com preços mais elevados, gerando maior rentabilidade e auxiliando na recuperação financeira do setor.
Por outro lado, se as perdas forem generalizadas, atingindo também as lavouras gaúchas, o aumento dos preços poderá apenas compensar parcialmente os prejuízos produtivos.
Além disso, a valorização das commodities tende a refletir em toda a cadeia econômica, podendo estimular investimentos, fortalecer a balança comercial brasileira e melhorar a arrecadação das regiões ligadas ao agronegócio.
O mercado agrícola mundial sempre busca um novo ponto de equilíbrio. Quando falta alimento, os preços sobem. Mas para o produtor rural, a verdadeira oportunidade não está apenas em vender caro. Está em conseguir produzir quando muitos não conseguem. Em um cenário de eventos climáticos extremos, a capacidade de gestão do risco pode se tornar tão valiosa quanto a própria fertilidade da terra.
Mais do que produzir, será preciso resistir
O agricultor gaúcho já provou inúmeras vezes sua capacidade de superar dificuldades.
Enfrentou secas históricas, enchentes, oscilações de mercado e crises econômicas.
Agora, talvez esteja diante de um novo desafio.
Se o El Niño projetado para 2026/2027 confirmar sua força, a preocupação não será apenas produzir mais.
Será preservar o solo, proteger a propriedade, manter a atividade econômica e garantir que milhares de famílias possam continuar vivendo da agricultura.
Porque, quando o campo sofre, não é apenas o produtor que perde.
Perde a economia, perde a cidade, perde o comércio e perde toda a sociedade.
Por: Marcio Ücker – Produtor Rural Gaúcho e Especialista em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário de Lisboa, Portugal (2024).
