A discussão sobre a escala 5×2 vai muito além da rotina urbana. Do outro lado do país, milhões de produtores rurais vivem uma realidade sem domingos, feriados ou horário para parar. Entenda por que o agro teme que essa mudança aumente ainda mais o custo dos alimentos, pressione pequenos negócios e chegue diretamente ao bolso de toda a população.
Nos últimos meses, voltou com força no Brasil o debate sobre o fim da escala 6×1 e a implantação de modelos de trabalho mais leves, como a escala 5×2. Para muitos trabalhadores urbanos, a ideia parece justa — e de fato existe um argumento legítimo quando se fala em qualidade de vida, saúde mental, convivência familiar e redução da exaustão em algumas profissões.
Mas existe um outro lado dessa discussão que ainda é pouco compreendido pela sociedade:
o impacto que isso pode gerar sobre quem produz os alimentos e, posteriormente, sobre o custo de vida de toda a população.
E talvez o principal ponto seja este: o agro não começa no supermercado, ele começa muito antes, começa na lavoura, no produtor rural, na família que trabalha no campo, na cooperativa, na oficina, no caminhoneiro, na cerealista, na indústria, no frigorífico, no transporte, na logística, ou seja:
quando aumenta o custo de um elo da cadeia, o reflexo chega inevitavelmente até a mesa do consumidor.
O Brasil urbano e o Brasil que produz
Grande parte da população brasileira vive nas cidades. Naturalmente, os debates nacionais acabam concentrados em temas urbanos como: jornada de trabalho; transporte; aluguel; mobilidade; comércio; serviços.
Mas existe um Brasil produtivo, silencioso e muitas vezes invisível, que funciona em outra lógica.
No campo, não existe feriado para os animais; não existe pausa para a chuva; não existe “adiar a colheita” porque chegou domingo; não existe horário para uma estiagem parar de destruir uma lavoura.
Na prática, milhares de produtores rurais vivem uma rotina que muitos definem como “escala 7×7”, trabalham domingos; feriados; madrugadas; sábados; períodos noturnos; muitas vezes sem férias há anos.
E isso ocorre porque, no agro brasileiro, principalmente no Sul do país, o trabalhador muitas vezes é o próprio dono do negócio, é o produtor, é a esposa, e o filho, é a família inteira envolvida na produção.
O produtor rural é trabalhador, empresário e investidor ao mesmo tempo
Esse talvez seja um dos pontos menos compreendidos fora do campo.
O produtor rural trabalha fisicamente, administra, assume financiamentos, investe, corre riscos, responde por funcionários, depende do clima, depende do mercado internacional, depende do dólar, depende dos juros, depende de políticas públicas.
E se algo der errado, ele perde renda, perde patrimônio, perde crédito, muitas vezes perde anos de trabalho.
Diferente de muitos setores urbanos, o produtor não possui garantia de salário fixo ao final do mês.
Se a safra quebra, o prejuízo vem integralmente para dentro da propriedade.
Mas o que a escala 5×2 pode impactar no agro?
Talvez não diretamente dentro da lavoura num primeiro momento, mas fortemente em toda a cadeia que sustenta o agro, porque o alimento passa por dezenas de etapas até chegar ao consumidor, como o transporte, armazenagem, processamento, indústria, supermercados, distribuição, embalagens, logística, manutenção, combustível, energia e mão de obra.
Se a jornada reduz sem aumento equivalente de produtividade, o custo operacional sobe, e quando o custo sobe em cadeia, ele chega inevitavelmente no preço da carne, do leite, do pão, do arroz, da soja, do óleo, dos hortifrutis, do frete e do supermercado.
Ou seja, o debate não afeta apenas empresas, afeta o custo de vida de toda a população.
Quem consegue absorver essa mudança?
Outro ponto importante é que grandes grupos econômicos normalmente conseguem se adaptar mais rápido, pois automatizam, criam mais turnos, diluem custos, investem em tecnologia.
Já pequenos negócios sofrem muito mais, como pequenos mercados, oficinas, cerealistas, cooperativas menores, pequenas agroindústrias, produtores rurais familiares.
E isso pode acelerar ainda mais a concentração econômica.
O momento econômico preocupa
A discussão também ocorre num momento extremamente delicado para a economia brasileira, no agro, especialmente no Rio Grande do Sul, muitos produtores acumulam perdas climáticas sucessivas, endividamento, juros elevados, dificuldade de crédito, baixa rentabilidade, aumento de custos, insegurança econômica.
Em muitas regiões do interior gaúcho já existe uma sensação clara de retração econômica, como comércio mais fraco, imóveis vazios, famílias deixando o campo, jovens abandonando a atividade rural, produtores trabalhando fora da propriedade para complementar renda.
Por isso, parte do setor produtivo entende que discutir redução estrutural de jornada neste momento pode aumentar ainda mais os custos de produção e pressionar a inflação dos alimentos.
A discussão não é contra o trabalhador
É importante deixar algo muito claro que o debate não deve ser tratado como “trabalhador contra produtor”, o produtor rural também é trabalhador, muitas vezes trabalha mais horas do que qualquer outro setor da economia.
O ponto central da preocupação é outro, como equilibrar a qualidade de vida, geração de empregos, produtividade, competitividade, custo dos alimentos, sustentabilidade econômica.
Porque, no final, toda decisão econômica acaba chegando ao mesmo lugar, o bolso da população.
O campo e a cidade precisam caminhar juntos
Talvez a maior reflexão seja justamente essa: o Brasil urbano e o Brasil do interior dependem um do outro, o trabalhador da cidade precisa de alimento acessível, e o produtor rural precisa de uma economia saudável para continuar produzindo.
Quando um elo enfraquece, toda a cadeia sente, por isso, debates como esse precisam ir além da política e das eleições, precisam considerar, produtividade, realidade econômica, competitividade internacional, custo Brasil, sobrevivência dos pequenos negócios e principalmente o impacto direto na vida das famílias brasileiras.
Porque no fim, tudo está conectado, o trabalho, o campo, a cidade, e o preço que chega à mesa de todos nós.
POR: Marcio Ücker – Produtor Rural Gaúcho e Especialista em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário de Lisboa, Portugal – 2024.
