A investigação sobre a morte de um menino de 3 anos, espancado pelo próprio pai em Viamão, ganhou novos desdobramentos após a prisão preventiva da mãe da criança. Segundo a Polícia Civil, as lesões apresentadas pela vítima revelam um grau de violência muito superior ao admitido pelo pai e reforçam a suspeita de que a mulher, responsável legal pela proteção do filho, foi omissa diante das agressões.
De acordo com a delegada Luana Tamiozzo Medeiros, responsável pelo caso, informações prestadas pela médica que realizou o primeiro atendimento à criança indicam que os ferimentos eram de extrema gravidade. Conforme a investigação, o menino sofreu traumatismos severos, incluindo afundamento do crânio e lesões no tórax que chegaram a deslocar o coração, evidenciando um espancamento brutal.
Embora o laudo definitivo do Instituto-Geral de Perícias (IGP) ainda não tenha sido concluído, a Polícia Civil reuniu elementos suficientes para alterar o enquadramento da investigação para homicídio doloso duplamente qualificado e tortura. A tipificação final será definida após a conclusão do inquérito.
A prisão preventiva da mãe foi solicitada com base nas provas reunidas ao longo da investigação, que apontam um histórico de violência dentro da família. Conforme a delegada, inicialmente acreditava-se que o pai teria desferido apenas socos contra o filho. No entanto, os relatos médicos e a gravidade das lesões indicam que as agressões foram muito mais intensas.
Durante o cumprimento de mandado de busca na residência da família, os investigadores constataram que o imóvel era dividido apenas por cortinas, sem portas entre os cômodos. Para a Polícia Civil, essa condição torna praticamente impossível que a mãe não tivesse ouvido as agressões sofridas pela criança.
Além disso, relatos sobre episódios anteriores de violência contra os irmãos da vítima reforçam a suspeita de que a mulher permaneceu omissa por um longo período. Segundo a delegada, ela tinha o dever legal de proteger os filhos e impedir as agressões.
O pai confessou ter agredido o menino, mas a Polícia Civil acredita que a versão apresentada por ele não explica toda a extensão dos ferimentos. A investigação trabalha com a hipótese de que a criança tenha sido agredida com objetos, além de socos e chutes. Informações recebidas pelos investigadores apontam que o homem costumava utilizar uma cinta para castigar os filhos, embora nenhum objeto tenha sido apreendido até o momento.
A família morava havia cerca de sete meses na localidade de Águas Claras, no interior de Viamão, em uma residência simples de madeira. Moradores relataram que pouco conheciam o casal e disseram ter ficado chocados com o crime. Segundo vizinhos, o homem afirmava ser missionário, porém nenhuma instituição religiosa confirmou qualquer vínculo oficial com ele.
A investigação também revelou que o casal vivia em situação de extrema vulnerabilidade social, sem emprego e dependendo da ajuda de terceiros para manter a moradia.
A Polícia Civil apura ainda o histórico da família em outros estados brasileiros. Foram encaminhados pedidos de informações a hospitais, Conselhos Tutelares e polícias civis de São Paulo e Santa Catarina, além de solicitação de cooperação ao consulado norte-americano, já que a família possui passagem pelos Estados Unidos.
Entre os fatos investigados está um episódio anterior em que uma das crianças teria sido levada a um hospital com fratura no fêmur, supostamente causada por uma queda. A polícia suspeita que o caso possa ter sido consequência de agressões. Também foi confirmado que, em outro momento, os filhos chegaram a ser acolhidos por um Conselho Tutelar antes de retornarem à guarda dos pais.
O Ministério Público do Rio Grande do Sul solicitou ainda apoio da Interpol para verificar a existência de antecedentes criminais do pai nos Estados Unidos. Paralelamente, a Polícia Civil também avaliará se houve falhas por parte da rede de proteção à infância no acompanhamento da família.
Durante depoimento, a mãe negou participação direta nas agressões, mas confirmou que o companheiro agredia os filhos e afirmou ser vítima de violência doméstica. Apesar disso, a Polícia Civil entende que há indícios de que ela tinha condições de impedir as agressões e permaneceu omissa.
Os outros quatro filhos do casal seguem acolhidos por determinação judicial. Todos foram submetidos a exames físicos e psicológicos, e a Justiça determinou medidas protetivas previstas na Lei Henry Borel, impedindo que a mãe tenha contato com as crianças enquanto a investigação estiver em andamento.
Em nota, a defesa da mulher informou que ela está colaborando com as investigações e sustentou que a cliente vivia em um contexto de violência doméstica, física, emocional e espiritual. Os advogados afirmam que os fatos devem ser apurados de forma técnica, sem julgamentos antecipados, e disseram que não irão se manifestar novamente em respeito à memória da criança e ao sigilo do inquérito.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: Correio do Povo
