Geada, granizo e possibilidade de chuvas acima da média reduzem o potencial de trigo e canola e acendem alerta para o caixa da próxima safra
Por Márcio Ücker – Agro e Clima
A safra de inverno de 2026, que começou com expectativa de recuperação para muitos produtores gaúchos, chega à reta final cercada de incertezas. Trigo e canola sofreram com eventos climáticos importantes em setembro e, agora, a preocupação se volta também para as condições de maturação e colheita.
A geada registrada em 7 de setembro, seguida por episódios de granizo em algumas regiões no dia 11, deixou marcas nas lavouras. No trigo, os efeitos sobre plantas que estavam em fases reprodutivas começam a aparecer com maior clareza. Na canola, há registros de síliquas no solo, ramos quebrados e estruturas danificadas pelo granizo, situação que pode provocar novas perdas até a colheita.
O problema é que, para o produtor, a conta não termina na lavoura. Ela começa justamente na relação entre quanto custa produzir, quanto será possível colher e qual preço será recebido.
A produtividade projetada já deixa pouca margem
As projeções da Emater/RS-Ascar indicavam para o Rio Grande do Sul uma produtividade média de aproximadamente 45 sacas de trigo por hectare e 27 sacas de canola por hectare.
Tomando como referência custos próximos de R$ 3.400/ha para o trigo e R$ 2.850/ha para a canola, é possível perceber como uma redução relativamente pequena da produtividade pode mudar completamente o resultado econômico.
No trigo, com preço de R$ 70 por saca, 45 sacas representam uma receita bruta de aproximadamente R$ 3.150 por hectare. Ou seja, praticamente todo o valor produzido seria consumido pelo custo.
Com uma perda de 20%, a produção cairia para 36 sacas e a receita para aproximadamente R$ 2.520/ha, gerando um resultado negativo próximo de R$ 880/ha.
Com 30% de perda, seriam apenas 31,5 sacas, com receita aproximada de R$ 2.205/ha e um déficit próximo de R$ 1.200/ha, antes mesmo de considerar possíveis descontos decorrentes da qualidade do grão.
Na canola, a situação inicialmente apresenta uma margem maior. Com 27 sacas por hectare e preço de R$ 150, a receita seria próxima de R$ 4.050/ha. Entretanto, uma perda de 30% reduziria a produção para aproximadamente 19 sacas, fazendo a receita cair para cerca de R$ 2.850/ha — praticamente o valor do custo estimado.
A CONTA POR HECTARE
| Trigo | Canola | |
| Produtividade projetada | 45 sc/ha | 27 sc/ha |
| Preço considerado | R$ 70/sc | R$ 150/sc |
| Receita projetada | R$ 3.150 | R$ 4.050 |
| Custo de referência | R$ 3.400 | R$ 2.850 |
| Resultado sem perda | – R$ 250 | + R$ 1.200 |
| Resultado com 20% de perda | – R$ 880 | + R$ 390 |
| Resultado com 30% de perda | – R$ 1.195 | – R$ 15 |
| Resultado com 40% de perda | – R$ 1.510 | – R$ 420 |
Valores aproximados, considerando custos de referência e sem incluir eventuais descontos ou bonificações de qualidade.
O PESO DE CADA 10% DE QUEBRA
Uma forma simples de entender o problema é simular diferentes níveis de perda de produtividade.
No trigo, a conta já parte praticamente do ponto de equilíbrio negativo. Na canola, existe uma margem inicial maior, mas ela desaparece rapidamente à medida que a produtividade cai.
| Quebra de produtividade | Trigo – resultado/ha | Canola – resultado/ha |
| Sem quebra | – R$ 250 | + R$ 1.200 |
| 10% | – R$ 565 | + R$ 795 |
| 20% | – R$ 880 | + R$ 390 |
| 30% | – R$ 1.195 | – R$ 15 |
| 40% | – R$ 1.510 | – R$ 420 |
Atenção: esses percentuais são cenários de simulação econômica, e não uma previsão de que as lavouras terão necessariamente determinada porcentagem de perda.
O objetivo é mostrar quanto o resultado financeiro muda quando a produtividade inicialmente esperada é reduzida.
Quando a perda de inverno chega à soja
Existe ainda um aspecto que muitas vezes não aparece nas estatísticas de produtividade.
Para muitos produtores, a receita do trigo e principalmente da canola seria utilizada para formar o caixa necessário para a implantação da soja: compra de sementes, fertilizantes, defensivos e demais insumos.
Quando a produção cai, diminui também o capital próprio disponível.
E isso pode criar um efeito em cadeia:
menor produtividade → menor receita → menor capital próprio → maior necessidade de crédito → menor capacidade de investimento na próxima safra.
Esse efeito é especialmente importante em propriedades que já chegam à nova safra com dívidas acumuladas, operações vencidas ou maior dificuldade de acesso ao crédito.
E SE O PROBLEMA NÃO FOR APENAS A PRODUTIVIDADE?
Existe ainda uma variável que pode ampliar o prejuízo: a qualidade do produto.
No trigo, não basta colher determinada quantidade de sacas. O produtor precisa entregar um grão dentro dos padrões exigidos pelo mercado.
Chuvas durante a maturação e a colheita podem aumentar o risco de problemas de qualidade, com reflexos sobre peso hectolitro, germinação, deterioração e qualidade industrial, dependendo das condições enfrentadas pela lavoura.
Na prática, isso significa que uma lavoura pode perder dinheiro por dois caminhos diferentes:
menos sacas produzidas + menor preço recebido pelas sacas colhidas.
Por isso, uma eventual perda de produtividade de 20% ou 30% não deve ser analisada isoladamente. Se vier acompanhada de desconto de qualidade, o resultado econômico poderá ser ainda mais negativo.
Geada, granizo e a preocupação com outubro
Nas áreas acompanhadas na região, os efeitos da geada de 7 de setembro começaram a ficar mais evidentes nos dias seguintes.
No trigo, o estágio em que cada lavoura se encontrava no momento da geada é determinante para dimensionar o dano. Plantas em fases reprodutivas podem apresentar comprometimento da formação e do enchimento dos grãos, além de redução do peso e da qualidade.
Na canola, os danos mecânicos provocados pelo granizo merecem atenção. Síliquas no chão, ramos quebrados e síliquas lesionadas podem representar perdas que continuam se manifestando à medida que a cultura avança para a maturação.
E existe ainda uma terceira variável: a chuva.
As previsões climáticas indicam possibilidade de precipitações acima da média durante a primavera. Caso períodos chuvosos coincidam com a maturação e a colheita, poderão ocorrer atraso na retirada das lavouras, debulha, acamamento e deterioração da qualidade.
É importante separar as situações: os danos provocados pela geada e pelo granizo já podem ser avaliados em campo; eventuais perdas adicionais provocadas pelas chuvas ainda dependem das condições que efetivamente ocorrerão.
Uma safra de inverno que vai muito além do inverno
O que está em jogo, portanto, não é somente o resultado econômico do trigo ou da canola.
Depois de anos de dificuldades climáticas e financeiras, muitos produtores chegam à safra 2026 com menor capacidade de investimento e maior dependência de crédito.
Uma nova redução de receita no inverno pode provocar um efeito em cadeia: menor produção, menor receita, menor capital próprio e maior necessidade de financiamento para a próxima safra.
Por isso, a safra de inverno precisa ser analisada não apenas pela produtividade por hectare, mas pelo resultado econômico efetivamente deixado ao produtor.
Produzir 45 sacas de trigo ou 27 sacas de canola pode parecer, à primeira vista, uma boa produção. Mas quando se coloca na mesma conta o custo, o preço, a qualidade e os efeitos sobre o capital disponível para a próxima safra, a realidade pode ser bastante diferente.
A safra ainda não terminou. Mas a conta já começou.
E, neste ano, cada saca terá um peso ainda maior: não apenas para pagar os custos da lavoura de inverno, mas também para ajudar a colocar a próxima safra de verão dentro da terra.
Nota técnica: os custos utilizados nesta simulação são valores de referência para uma condição de produção de tecnologia intermediária e não representam um custo único para todas as propriedades. O resultado efetivo varia conforme sistema de produção, arrendamento, nível tecnológico, financiamento, produtividade e demais características de cada propriedade.
