Uma cultura que ajudou a construir o Rio Grande do Sul
Durante décadas, o trigo foi uma das culturas mais importantes da agricultura do Rio Grande do Sul. Muito antes da soja assumir o protagonismo econômico do estado, era o trigo que ajudava a sustentar milhares de propriedades rurais, movimentar cooperativas, fortalecer cidades do interior e construir patrimônio no campo.
Muitos agricultores ainda lembram de um período em que o trigo representava não apenas uma cultura de inverno, mas uma verdadeira ferramenta de crescimento econômico. Em diversas regiões do estado, especialmente no Planalto Médio, Alto Uruguai e Missões, o lucro obtido com o cereal ajudava famílias a comprar terras, ampliar áreas agrícolas, investir em máquinas, construir estruturas e consolidar a sucessão familiar no campo.
O trigo possuía enorme importância econômica, mas também carregava um valor cultural muito forte dentro da história agrícola gaúcha. Afinal, foi justamente através da triticultura que o Rio Grande do Sul ajudou a desenvolver parte do modelo agrícola que mais tarde transformaria o estado em uma potência nacional de produção de grãos.
O produtor evoluiu muito, e isso precisa ser reconhecido
Ao longo dos últimos 20 anos, a realidade econômica da cultura passou por uma transformação profunda. E talvez o dado mais importante seja que essa mudança não ocorreu por falta de evolução do produtor rural. Muito pelo contrário.
O agricultor gaúcho evoluiu enormemente nesse período. A produtividade média das lavouras cresceu de forma significativa. O manejo se profissionalizou. O uso de genética moderna, agricultura de precisão, correção de solo, fungicidas mais eficientes e técnicas avançadas de manejo elevou o padrão técnico das lavouras a um nível extremamente alto.
Hoje, em muitas propriedades do Rio Grande do Sul, produtividades entre 70 e 90 sacas por hectare já são consideradas plenamente possíveis em anos favoráveis. Há vinte anos, esses números eram vistos quase como exceção.
Além disso, o trigo produzido no estado passou a apresentar qualidade industrial muito superior. O produtor gaúcho aprendeu a produzir trigo PH 78+, com boa força de glúten, qualidade de moagem e padrão industrial valorizado pelos moinhos.
Ou seja: o problema atual do trigo gaúcho não é técnico. O produtor produz mais, melhor e com muito mais eficiência do que produzia no passado.
O trigo nunca foi apenas “uma conta por hectare”
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes, e menos compreendidos pela sociedade urbana.
O trigo não serve apenas para “dar lucro”. Sua importância vai muito além da renda imediata da lavoura.
O cereal possui enorme valor agronômico para o sistema produtivo gaúcho. A cultura ajuda a formar palhada, proteger o solo, reduzir erosão, melhorar infiltração de água, conservar umidade e sustentar o sistema de plantio direto, uma das maiores revoluções da agricultura brasileira.
Além disso, o trigo ajuda no controle de ervas daninhas, quebra ciclos de doenças, melhora a estrutura física do solo e deixa residual importante de fertilidade para a soja cultivada posteriormente.
Diversos produtores relatam aumento de produtividade da soja após trigo bem manejado, mostrando que parte do retorno econômico da cultura aparece de forma indireta na safra seguinte.
O trigo também ajuda a diluir custos fixos da propriedade, manter máquinas trabalhando, preservar equipes de funcionários e movimentar toda a economia regional durante o inverno.
Por isso, quando o trigo perde área, o impacto não fica restrito apenas à lavoura. Ele atinge cerealistas, cooperativas, oficinas, transportadores, revendas e cidades inteiras do interior gaúcho.
O que os números históricos mostram
O levantamento realizado com base em dados históricos da CONAB, Emater, Embrapa e séries de mercado mostra que, embora os preços do trigo tenham apresentado valorização gradual ao longo dos anos, os custos de produção cresceram de forma muito mais acelerada.
Entre 2005 e 2019, o mercado de trigo viveu um período relativamente estável. Os preços subiam lentamente, acompanhando inflação, câmbio e evolução do mercado agrícola. Ainda assim, o trigo seguia sendo uma cultura financeiramente viável em muitas propriedades, principalmente quando analisado dentro do sistema agrícola como um todo.
As tabelas históricas do estudo mostram que, em diversos momentos desse período, principalmente em sistemas de média tecnologia, o produtor ainda conseguia resultados positivos ou próximos do equilíbrio econômico.
Isso ajuda a explicar por que tantas propriedades rurais gaúchas conseguiram crescer patrimonialmente através da cultura do trigo no passado.
O período excepcional entre 2020 e 2022
A grande ruptura ocorreu entre 2020 e 2022. A pandemia da Covid-19, os problemas logísticos globais, a disparada dos fertilizantes e, posteriormente, a guerra entre Rússia e Ucrânia provocaram um choque sem precedentes no mercado mundial de commodities agrícolas.
O trigo disparou de preço.
No Rio Grande do Sul, muitos produtores venderam trigo acima de R$ 100 por saca. O cenário gerou forte entusiasmo no setor. Houve expansão de área, aumento de investimentos e expectativa de um novo ciclo de rentabilidade elevada para a triticultura gaúcha.
As tabelas do levantamento deixam isso muito claro. O ano de 2021 aparece como um ponto totalmente fora da curva, com resultado econômico extremamente positivo para a cadeia produtiva do estado.
Foi provavelmente um dos melhores momentos econômicos recentes da triticultura gaúcha.
O problema: o preço voltou, mas o custo ficou
O que parecia uma mudança estrutural acabou se mostrando um fenômeno conjuntural e temporário.
A partir de 2023, os preços começaram a recuar rapidamente. O mercado mundial se reorganizou, os estoques aumentaram, a oferta global voltou a crescer e os valores pagos ao produtor retornaram para níveis muito próximos aos observados em 2020.
Hoje, o trigo novamente gira próximo de R$ 60 a R$ 70 por saca.
Mas os custos não voltaram.
E talvez esse seja o dado mais importante de toda a análise econômica do trigo gaúcho.
Em 2020, o produtor recebia aproximadamente R$ 64 por saca de trigo PH 78+, com um custo médio estimado próximo de R$ 2.800 por hectare.
Já em 2025, o trigo voltou a girar entre R$ 60 e R$ 70 por saca, porém o custo médio de produção ultrapassa os R$ 5.000 por hectare.
Ou seja:
o preço praticamente retornou ao mesmo patamar,
mas o custo quase dobrou.
Os déficits recentes impressionam
Quando a tabela histórica construída no estudo é analisada, os resultados se tornam extremamente reveladores.
Mesmo considerando sistemas de média tecnologia, e não apenas lavouras altamente tecnificadas, os números apontam déficits bilionários em escala estadual após 2022.
O estudo estima perdas superiores a:
• R$ 1 bilhão em 2022;
• mais de R$ 3 bilhões em 2023;
• e novos déficits expressivos nas safras seguintes.
E talvez o mais impressionante seja perceber que isso aconteceu justamente num período em que o produtor já estava mais eficiente, mais tecnológico e mais produtivo do que nunca.
Isso demonstra que a crise atual da agricultura gaúcha não pode ser explicada por baixa produtividade ou falta de profissionalismo do agricultor.
O problema está no ambiente econômico e climático, que se tornou muito mais hostil nos últimos anos.
O trigo continua essencial para o Rio Grande do Sul
Apesar das dificuldades econômicas recentes, o trigo continua sendo estratégico para o estado.
Sua importância vai muito além da margem financeira imediata.
O cereal sustenta o sistema de plantio direto, protege o solo, melhora a soja posterior, movimenta cooperativas, gera empregos e ajuda a manter viva boa parte da economia do interior gaúcho.
O trigo está profundamente ligado:
• à história;
• à cultura;
• e à própria identidade agrícola do Rio Grande do Sul.
O grande desafio daqui para frente
O levantamento mostra que o trigo gaúcho moderno se tornou uma cultura de alta exigência, alto investimento e elevado risco climático.
Hoje, para obter resultado positivo, o produtor precisa:
• produzir muito;
• colher qualidade;
• acertar o clima;
• e ainda vender bem.
E talvez esteja aí a maior preocupação atual do agricultor gaúcho.
Porque o produtor continua produzindo. Continua investindo. Continua evoluindo tecnicamente.
Mas a combinação entre custo elevado, crédito mais difícil, volatilidade de mercado e eventos climáticos extremos está tornando a atividade cada vez mais arriscada e financeiramente instável.
E os números históricos do trigo gaúcho mostram isso com enorme clareza.
POR: Marcio Ücker
Produtor Rural Gaúcho e Especialista em Gestão de Negócios com Ênfase em Agronegócios – Centro Universitário de Lisboa – Portugal, 2024.
