O projeto do contorno ferroviário de Cruz Alta, no Noroeste do Estado, segue em fase de elaboração pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), mas já provoca debate entre lideranças políticas e parte do setor produtivo do município. A principal manifestação contrária ao modelo preliminar apresentado parte da 3tentos, que afirma não ter sido consultada durante a construção da proposta e teme prejuízos operacionais caso o traçado previsto seja mantido.
O empreendimento prevê a retirada da linha férrea da área urbana da cidade, com implantação de dois contornos ferroviários, novo pátio de manobras e viadutos. O projeto foi anunciado pelo governo federal em julho de 2025 e é tratado por lideranças locais como uma demanda histórica do município.
Segundo o Dnit, o contrato para elaboração do projeto básico com a empresa TPF Engenharia entrou em vigor em 22 de julho de 2025, com prazo de execução de 36 meses. Conforme a autarquia, o projeto contempla aproximadamente 30 quilômetros de novos trechos ferroviários, além de obras de arte especiais e um novo pátio ferroviário.
Após a conclusão do projeto básico, o material ainda deverá passar por análise técnica, ajustes, consolidação orçamentária e licenciamento ambiental. Até o momento, não há previsão oficial para o início das obras ou abertura de licitação.
A principal crítica ao modelo em elaboração vem da 3tentos, que mantém desde 2019 uma planta de extração de óleo e farelo de soja em Cruz Alta. O diretor industrial da empresa, Leandro Carbone, afirmou que a companhia não foi consultada durante a definição preliminar do traçado.
Segundo ele, a escolha de Cruz Alta para instalação da unidade ocorreu justamente pela proximidade com o atual pátio ferroviário da Rumo Logística. A empresa possui um ramal exclusivo conectado diretamente ao local de triagem ferroviária.
“Hoje somos o maior embarcador da Rumo no Estado. Temos capacidade para mais de 100 vagões por dia”, afirmou Carbone.
De acordo com o diretor, a proposta preliminar prevê a transferência do pátio ferroviário para outra região do contorno, o que poderá aumentar o tempo operacional entre a formação das composições e o carregamento da unidade industrial.
“Hoje a Rumo leva em torno de duas horas para fazer essa operação conosco. Pelo novo modelo, isso poderia dobrar”, declarou.
Apesar das críticas, a empresa afirma ser favorável à implantação do contorno ferroviário, desde que haja diálogo com os setores impactados. Na semana passada, a situação foi apresentada durante reunião da Associação Comercial e Industrial de Cruz Alta, que deverá encaminhar a demanda à prefeitura.
Ao Jornal Cidades, o Dnit informou que o projeto segue em elaboração e permanece aberto à participação popular. O órgão orienta que sugestões sejam encaminhadas à unidade local do departamento em Cruz Alta ou aos canais institucionais da Diretoria de Infraestrutura Ferroviária.
Segundo a autarquia, o empreendimento foi concebido com visão estratégica de longo prazo e já considera futura integração com a Ferrovia Norte-Sul. O projeto prevê dois contornos ferroviários — um com 18,69 quilômetros e outro com 11,10 quilômetros — além de quatro viadutos ferroviários e um novo pátio de manobras. A proposta também substituirá os atuais 45 quilômetros de ferrovia urbana por cerca de 30 quilômetros de novos trechos segregados.
Quando o projeto foi anunciado, a Prefeitura de Cruz Alta afirmou que a obra poderá reduzir ruídos, acidentes e congestionamentos, além de valorizar áreas urbanas e modernizar a logística local.
O presidente da Câmara Municipal de Cruz Alta, vereador Matheus Amaral, destacou que o contorno ferroviário poderá diminuir conflitos entre o transporte ferroviário e o trânsito urbano.
“Em horários de pico, os vagões acabam travando o trânsito e gerando insegurança”, afirmou.
Segundo Amaral, as composições cruzam a cidade várias vezes ao dia, inclusive nos horários de maior movimento. Ele também citou problemas de mobilidade e condições precárias em algumas passagens próximas aos trilhos.
“A gente não é contra a ferrovia. Muito pelo contrário. O que defendemos é uma solução que permita a continuidade da operação sem prejudicar a cidade”, declarou.
Em entrevista concedida em março deste ano ao Jornal do Comércio, a prefeita de Cruz Alta, Paula Rubin Facco Librelotto, afirmou que o projeto poderá trazer mais dinamismo econômico e modernização para o município, ampliando a capacidade de escoamento da produção e recebimento de matérias-primas.
O debate sobre os impactos da ferrovia voltou a ganhar força após um acidente registrado em 30 de abril deste ano, quando uma carreta carregada com grãos foi atingida por uma locomotiva em Cruz Alta. A colisão provocou bloqueio total de uma estrada do município após a carga se espalhar sobre a pista.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Foto: André da Cuia
Fonte: Jornal Cidades
