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    Início » Câmera corporal grava áudio de suposta tortura e quatro PMs viram réus por crimes na Zona Sul de Porto Alegre
    Justiça

    Câmera corporal grava áudio de suposta tortura e quatro PMs viram réus por crimes na Zona Sul de Porto Alegre

    Fernando KopperFernando Kopper28 de janeiro de 202604 Mins Read24
    Uma câmera corporal utilizada por um policial da Brigada Militar (BM) registrou, em áudio, uma suposta sessão de tortura que teria ocorrido durante uma abordagem policial na Zona Sul de Porto Alegre. O caso resultou na abertura de ação penal na Justiça Militar contra quatro soldados do 21º Batalhão da BM, que se tornaram réus por crimes como tortura, invasão de domicílio, cárcere privado e outras infrações previstas na legislação penal e militar.

    Dois dos policiais, Sandro Urubata Acosta e Anderson Azambuja de Souza, estão presos preventivamente no Presídio Policial Militar. Já Anderson Nascimento da Silva e Nathan Fraga Leon respondem ao processo em liberdade. Nesta quarta-feira (28), às 14h, o Tribunal de Justiça Militar julga o habeas corpus dos dois militares que permanecem detidos.

    Áudio sem imagens

    De acordo com o Ministério Público (MP), a câmera corporal de um dos policiais estava com a lente intencionalmente obstruída, o que impediu o registro de imagens da ação. Apesar disso, o equipamento continuou gravando o áudio, que, conforme a acusação, captou sons compatíveis com agressões físicas, sufocamento com sacola plástica, uso de arma de choque e ameaças graves.

    As gravações teriam registrado cerca de 23 minutos de violência. Em um dos trechos descritos pelo MP, um homem clama para que a tortura cesse, enquanto vozes atribuídas aos policiais perguntam repetidamente “onde está a PT”, gíria usada para se referir a uma pistola.

    Em outro momento, segundo a denúncia, um dos policiais teria ameaçado:

    “A próxima vai ser na tua mulher, tua ‘nega véia’. Vamos ficar até amanhã”.

    Diante da ausência de respostas, outra frase atribuída a um policial teria sido registrada:

    “Agora é sessão de horrores”.

    Invasão durante a madrugada

    O episódio teria ocorrido na madrugada de 1º de agosto de 2025, no bairro Lami, na Zona Sul da capital. Conforme a denúncia do MP, os policiais, que estavam em escala de serviço, teriam invadido uma residência sem mandado judicial, arrombando a porta com chutes e um objeto metálico enquanto um casal e a filha dormiam.

    Após a entrada no imóvel, os militares teriam ido até o quarto, rendido o homem e iniciado agressões com spray de pimenta, além de ameaças para que ele indicasse o paradeiro de uma arma de fogo.

    Retirada forçada e torturas

    Sem obter respostas, a vítima teria sido retirada à força da residência, colocada no porta-malas de uma viatura e levada para diferentes pontos da Zona Sul de Porto Alegre. Em um desses locais, segundo o MP, o homem foi submetido a novas sessões de tortura.

    Posteriormente, os policiais teriam retornado com a vítima à residência, onde novas agressões físicas e psicológicas teriam ocorrido enquanto os militares realizavam buscas por armas, drogas e dinheiro no imóvel.

    Em seguida, o homem teria sido novamente levado de viatura até uma área de matagal, onde, conforme a denúncia, sofreu tortura com disparos de arma de incapacitação neuromuscular, chutes e agressões com pedaços de pau. Dois tiros de arma de fogo também teriam sido disparados próximos à vítima como forma de intimidação.

    Laudos periciais anexados ao processo apontam equimoses, escoriações e hematomas em diversas partes do corpo, compatíveis com as agressões descritas na investigação.

    Cárcere privado da companheira

    Enquanto o homem era levado pelos policiais, a companheira dele teria permanecido dentro da residência, supostamente impedida de sair. Conforme o MP, um dos militares ficou no local mantendo a mulher em cárcere privado, com o objetivo de evitar que ela buscasse ajuda.

    O Ministério Público sustenta que os quatro policiais agiram em conjunto, estavam de serviço no momento dos fatos e cometeram os crimes para aplicar castigo pessoal ou obter informações.

    Questionamentos da investigação

    A denúncia foi assinada pela promotora de Justiça Anelise Haertel Grehs, que destacou não ter ficado claro, ao longo da investigação conduzida pela Corregedoria da Brigada Militar, qual seria o real interesse dos policiais em relação à pistola mencionada nas ameaças.

    Versões das defesas

    As defesas negam as acusações. O advogado Márcio Rosano, que representa Sandro Urubata Acosta e Anderson Azambuja de Souza, afirma que a inocência dos policiais “já está sendo provada na instrução processual”, sustentando que imagens de vídeo e declarações prestadas em juízo pelas próprias vítimas indicariam que não houve violência durante a abordagem.

    Já o advogado Jairo Cutinski, defensor de Anderson Nascimento da Silva, afirma que seu cliente não teve contato físico com nenhuma das vítimas, motivo pelo qual responde ao processo em liberdade.

    Por fim, o advogado Giliar Pires, que defende Nathan Fraga Leon, declarou que seu cliente atuava apenas como motorista da viatura, permaneceu majoritariamente em via pública e não participou dos atos descritos na denúncia.

    O caso segue em tramitação na Justiça Militar e aguarda novas decisões judiciais.

    Com informações: Jornalista Fernando Kopper

    Fonte: Portal News/Renê Leal/GZH

    Fernando Kopper

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