Uma operação conjunta da Polícia Civil, do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério do Trabalho identificou pelo menos 42 trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão em quatro municípios do Norte do Rio Grande do Sul: Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas. As investigações também apontam a possível existência de uma rede de tráfico internacional de pessoas para exploração de mão de obra.
As apurações começaram em 19 de outubro, após uma denúncia recebida pela equipe da Operação Protetor das Divisas, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A informação indicava que trabalhadores estrangeiros estariam vivendo e trabalhando em condições precárias em uma propriedade rural no interior de Aratiba.
Na primeira fiscalização, os agentes encontraram oito trabalhadores, sendo sete estrangeiros e um brasileiro. Eles estavam alojados em imóveis improvisados, sem condições adequadas de higiene, segurança e dignidade.
Conforme os depoimentos colhidos durante a investigação, os trabalhadores foram recrutados em seus países de origem por intermediários que prometiam salários atrativos, moradia gratuita, alimentação, transporte e acesso à internet. Segundo os relatos, eles eram orientados a entrar no Brasil por rotas alternativas e, posteriormente, levados a municípios do Norte gaúcho para trabalhar na colheita de citros.
A realidade encontrada, porém, era diferente das promessas. Os trabalhadores relataram jornadas de até 12 horas diárias, sem descanso, falta de pagamento dos salários combinados e descontos referentes à alimentação, moradia e transporte.
Alguns também afirmaram que eram informados de que possuíam dívidas com os empregadores por terem faltado ao trabalho em determinados dias. Além disso, não havia folgas regulares, e muitos permaneciam sem contato com familiares devido à falta de sinal de telefonia e de acesso à internet nos alojamentos.
As equipes de fiscalização também identificaram condições precárias de transporte e moradia. Segundo os relatos, os trabalhadores eram levados aos locais de colheita em caçambas de caminhões, com os custos descontados de seus rendimentos. Em algumas residências, até 15 pessoas dividiam o mesmo espaço, sem camas e colchões suficientes para todos.
Entre os dias 20 e 23 de outubro, novas diligências foram realizadas nos quatro municípios, resultando na identificação de outros grupos de trabalhadores estrangeiros. Ao final da operação, o número de pessoas localizadas chegou a 42, todas retiradas das condições relatadas e encaminhadas para acolhimento.
De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público do Trabalho, os elementos reunidos indicam a atuação de uma possível organização estruturada para recrutar estrangeiros em situação de vulnerabilidade, transportá-los ao Brasil mediante falsas promessas e submetê-los a condições degradantes de trabalho.
Além da investigação sobre trabalho análogo à escravidão, os órgãos apuram possíveis crimes relacionados ao tráfico internacional de pessoas. Os responsáveis pelo recrutamento, transporte e contratação dos trabalhadores já foram identificados, mas ainda não foram localizados.
As vítimas receberam apoio das equipes de assistência social de Erechim, Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas. O Ministério do Trabalho informou que dará continuidade às fiscalizações e entrevistas nos próximos dias para identificar possíveis novas vítimas.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: GZH
