Por: Marcio Ücker – Produtor Rural Gaúcho e Especialista em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário de Lisboa – Portugal (2024).
Análise de 15 anos de dados mostra que a preocupação é legítima, mas a história revela que nem todo El Niño significa quebra de safra. O segredo está na distribuição das chuvas, não apenas no volume acumulado.
O anúncio da formação de um novo El Niño para o segundo semestre de 2026 reacendeu o alerta entre produtores rurais do Rio Grande do Sul. Depois das enchentes históricas dos últimos anos, qualquer previsão de chuva acima da média naturalmente gera preocupação.
Recentemente, a MetSul Meteorologia divulgou projeções indicando precipitações acima da média para o trimestre de julho a setembro de 2026. Os mapas apontam desvios positivos entre aproximadamente 60 e 100 milímetros sobre a climatologia normal para grande parte do Estado.
Mas o que isso realmente significa para as lavouras de trigo?
Para responder a essa pergunta, foi realizado um levantamento com dados de precipitação registrados em estação climática localizada no interior de Ibirubá-RS, comparando os acumulados de julho a setembro dos últimos quinze anos com os fenômenos climáticos predominantes e as produtividades médias obtidas pelo trigo no Rio Grande do Sul.
O que mostram os últimos 15 anos?
Ano/Chuva Jul-Set (mm)/Fenômeno Climático/Produtividade Trigo RS (kg/ha)
2011 585,5 La Niña 2.250
2012 527,0 Neutro 2.650
2013 450,0 Neutro 3.060
2014 742,0 Neutro (pré El Niño) 2.260
2015 558,0 El Niño Forte 2.980
2016 385,5 Transição El Niño 2.180
2017 336,0 Neutro 2.750
2018 409,5 Neutro 2.910
2019 285,0 El Niño Fraco / Neutro 2.720
2020 542,0 Neutro / início La Niña 3.200
2021 306,0 La Niña 2.850
2022 186,5 La Niña 2.990
2023 946,9 El Niño Forte 1.751
2024 248,0 Neutro (pós El Niño) 2.970
2025 358,8 Neutro 2.950
2025 358,8 Neutro 2.950
Médias do período (2011-2025)
• Chuva média julho-setembro: 457,6 mm
• Produtividade média do trigo no RS: 2.715 kg/ha
A primeira conclusão é bastante clara: não existe relação direta entre a simples presença de El Niño ou La Niña e o desempenho das lavouras de trigo.
O exemplo mais evidente é o próprio El Niño. Em 2015, sob influência de um forte episódio do fenômeno, o Estado alcançou produtividade próxima de 3 toneladas por hectare. Já em 2023, também sob forte El Niño, a produtividade despencou para apenas 1.751 kg por hectare.
Isso demonstra que o fator decisivo não é apenas o fenômeno climático em si, mas a forma como ele se manifesta em cada região e em cada fase do ciclo produtivo.
O que esperar para 2026?
A média histórica da estação analisada é de 457,6 milímetros para o trimestre julho-setembro.
Considerando o desvio positivo apontado pelos mapas da MetSul, entre 60 e 100 milímetros acima da normalidade, a projeção para 2026 ficaria entre:
• 518 mm
• 558 mm
Curiosamente, esse intervalo é muito semelhante ao observado em anos como:
Ano Chuva (mm) Produtividade (kg/ha)
2012 527 2.650
2015 558 2.980
2020 542 3.200
Ou seja, os volumes projetados atualmente estão muito mais próximos de anos considerados produtivos do que dos eventos extremos observados em 2014 e principalmente em 2023.
O verdadeiro risco não é o volume, mas a distribuição
Uma precipitação total de 550 milímetros ao longo de três meses não representa, necessariamente, um problema para o trigo.
Pelo contrário. Em muitos casos, esse volume pode proporcionar excelente disponibilidade hídrica para a cultura.
O risco surge quando a chuva se concentra em curtos períodos.
Eventos de 100 a 200 milímetros em poucos dias podem provocar encharcamento dos solos, impedir aplicações de fungicidas, aumentar a incidência de giberela, brusone e manchas foliares, além de elevar os riscos de acamamento e perda de qualidade industrial dos grãos.
Por isso, a preocupação para 2026 não está apenas no acumulado previsto, mas principalmente em como essas precipitações serão distribuídas ao longo de agosto e setembro.
Além do clima, existe o fator econômico
Outro elemento que merece atenção é a situação financeira enfrentada pelos produtores rurais.
Após sucessivas frustrações climáticas, preços pressionados e aumento dos custos de produção, muitos agricultores chegam à safra de inverno com limitações de crédito e menor capacidade de investimento.
A redução do uso de fertilizantes, fungicidas e tecnologias de manejo já é observada em diversas propriedades, podendo limitar o potencial produtivo mesmo em um cenário climático favorável.
Conclusão
Os dados históricos mostram que o cenário projetado para o inverno de 2026 está longe de indicar, neste momento, uma repetição do desastre observado em 2023.
A projeção atual se aproxima muito mais de anos como 2012, 2015 e 2020, quando as chuvas ficaram acima da média, mas ainda dentro de uma faixa compatível com boas produtividades.
O produtor deve manter a cautela, acompanhar as atualizações meteorológicas e reforçar as estratégias de manejo sanitário, mas sem perder de vista que os números históricos ainda apontam potencial para uma boa safra de trigo no Rio Grande do Sul.
Afinal, os últimos quinze anos deixam uma lição importante: nem todo El Niño traz desastre. O sucesso ou o fracasso da safra continua dependendo muito mais da distribuição das chuvas do que do nome do fenômeno climático.
