Dois anos após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, novos dados apresentados pela Embrapa revelam que parte dos solos agrícolas atingidos ainda enfrenta grandes dificuldades de recuperação e, em alguns casos, pode nunca voltar ao mesmo nível de produtividade anterior ao desastre. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (9), durante o evento Balanço Recupera Rural RS: 2 anos de reconstrução da agropecuária gaúcha.
Segundo o coordenador do projeto Recupera Rural RS e pesquisador da Embrapa, Ernestino Guarino, a capacidade de recuperação varia conforme os danos sofridos por cada propriedade. Enquanto algumas áreas apresentam boas condições para retomar a produção, outras tiveram perdas severas da camada superficial do solo, considerada a mais fértil.
“Algumas situações são mais difíceis de restaurar o solo como era antes, mas conseguimos aliviar parte desse prejuízo utilizando técnicas adequadas de recuperação e conservação”, afirmou o pesquisador.
De acordo com o levantamento, cerca de 550,4 mil hectares de solos foram atingidos pelas enchentes em 94 municípios gaúchos. Os danos incluem desde processos erosivos em áreas mais elevadas até o acúmulo de sedimentos em regiões alagadas.
O pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Adilson Bamberg, explicou que a velocidade da recuperação depende do tipo de material depositado pelas enchentes. Áreas que receberam sedimentos finos, ricos em argila e nutrientes, tendem a se recuperar mais rapidamente. Já locais cobertos por camadas espessas de areia exigem intervenções mais complexas.
Entre as estratégias desenvolvidas estão novas combinações de plantas de cobertura, utilização de condicionadores de solo e ações de reordenamento territorial e hidrológico para reduzir futuros impactos.
Apesar dos avanços registrados em algumas regiões, os pesquisadores afirmam que ainda não é possível determinar quanto da área afetada já foi efetivamente recuperada. Em determinados casos, o restabelecimento da capacidade produtiva poderá levar vários anos e até mesmo não alcançar os níveis anteriores devido à perda da espessura do solo.
Outro dado apresentado durante o evento aponta que o Rio Grande do Sul possui aproximadamente 4,46 milhões de hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) hídricas, consideradas fundamentais para a regulação dos recursos hídricos, proteção ambiental e redução dos impactos provocados por eventos climáticos extremos.
Os especialistas também avaliam que, embora o Estado esteja mais preparado para enfrentar novas crises climáticas do que antes das enchentes de 2024, ainda há um longo caminho a percorrer.
“Estamos melhor preparados do que estávamos antes, mas 100% preparados não. Nós ainda não conseguimos nem nos recuperar completamente do que aconteceu em 2024”, destacou Ernestino Guarino.
Os estudos desenvolvidos pela Embrapa também servirão de base para a elaboração de cenários relacionados à possível atuação do fenômeno El Niño. Conforme o pesquisador Adalberto Miura, o objetivo é fornecer condições prognósticas que auxiliem gestores públicos, órgãos ambientais e produtores rurais na tomada de decisões, identificando áreas prioritárias para conservação e restauração dos solos mais vulneráveis do Estado.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
