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    Início » A Conta Não Fecha: Dívida do Agro no RS Exige de 3 a 8 Safras “Perfeitas” para ser Quitada
    Agronegócio

    A Conta Não Fecha: Dívida do Agro no RS Exige de 3 a 8 Safras “Perfeitas” para ser Quitada

    Fernando KopperFernando Kopper7 de abril de 202603 Mins Read11

    Por: Marcio Ücker, Produtor Rural Gaúcho e Especialista em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário de Lisboa, Portugal, 2024.

    Levantamento aponta que o endividamento dos produtores gaúchos soma R$ 72,8 bilhões; com margens de lucro comprimidas e sucessivas quebras de safra, a probabilidade de recuperação financeira sem intervenção estrutural é baixa.

    O agronegócio gaúcho, motor que movimenta cerca de 40% do PIB do Rio Grande do Sul, vive um paradoxo financeiro sem precedentes. Enquanto o Valor Bruto da Produção (VBP) do estado para 2024 é estimado em expressivos R$ 104,41 bilhões, o “estoque” de dívidas acumuladas pelos produtores rurais atingiu a marca de R$ 72,82 bilhões, segundo dados de órgãos do setor.

    O Abismo entre Faturamento e Lucro

    À primeira vista, um faturamento anual de R$ 104 bilhões sugeriria uma saúde financeira robusta. No entanto, a realidade “dentro da porteira” é outra. Após descontar os altos custos de insumos, sementes, diesel e logística, a margem de lucro líquido que sobra para o produtor varia, historicamente, entre 10% e 25%.

    Na prática, isso significa que o setor gera anualmente entre R$ 10 bilhões e R$ 26 bilhões de lucro real. Ao cruzar esse dado com o montante da dívida total, chega-se a uma conclusão matemática alarmante: seriam necessárias entre 3 e 8 safras consecutivas de pleno sucesso, com produtividade recorde e preços internacionais favoráveis, para que o setor pudesse quitar suas obrigações, desde que utilizasse todo o seu lucro apenas para esse fim.

    A Sexta Frustração e o Efeito “Bola de Neve”

    O cálculo de 3 a 8 safras, contudo, é considerado otimista e quase utópico por analistas. O Rio Grande do Sul acaba de registrar sua sexta frustração de safra importante nos últimos anos, entre secas severas e as enchentes históricas de 2024.

    “A probabilidade estatística de termos oito safras perfeitas em sequência, sem riscos climáticos ou oscilações bruscas de mercado, é baixíssima”, explicam especialistas em economia rural. Além disso, a dívida de R$ 72,8 bilhões não é estática; ela é corrigida por juros que, em muitos casos, consomem boa parte da margem de lucro antes mesmo de o produtor conseguir abater o valor principal (o “corpo” da dívida).

    Onde está o dinheiro?

    Dos R$ 72,82 bilhões devidos, apenas R$ 27,4 bilhões estão vinculados ao crédito rural oficial (bancos). A maior fatia, cerca de R$ 45,4 bilhões, encontra-se no chamado “mercado de balcão”: dívidas com cooperativas, empresas de insumos (barter) e tradings, além de R$ 9,1 bilhões já inscritos na Dívida Ativa da União.

    Soluções no Horizonte

    Diante da baixa probabilidade de quitação via lucro operacional no curto prazo, o setor intensifica a pressão por medidas extraordinárias. Programas como o Desenrola Rural e as recentes linhas de renegociação do BNDES (que aprovou R$ 7,5 bilhões para este fim) são vistos como “balões de oxigênio”, mas não como a solução definitiva.

    Para que a conta volte a fechar, o consenso entre as entidades de classe é de que o estado necessita de um alongamento compulsório das dívidas para prazos de 15 a 20 anos, com juros subsidiados e carência estendida. Sem isso, o risco é de uma estagnação tecnológica no campo, já que o lucro que deveria ser reinvestido em máquinas e fertilidade de solo continuará sendo drenado pelo sistema financeiro para cobrir prejuízos de safras que o clima não deixou colher.

    Fernando Kopper

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