A baixa produtividade da soja no Rio Grande do Sul representa perdas bilionárias para a economia estadual, com reflexos na arrecadação de impostos, no comércio, na indústria e na geração de empregos. Enquanto a produtividade média nacional alcança 60,36 sacas por hectare, o Estado produz, em média, 14,2 sacas a menos por hectare, diferença que evidencia os desafios enfrentados pelo agronegócio gaúcho.
Considerando a área cultivada de 6,73 milhões de hectares, o Rio Grande do Sul poderia ter colhido mais de 24 milhões de toneladas de soja caso atingisse a média nacional de produtividade. Entretanto, a produção efetiva na safra 2025/2026 ficou em torno de 18,6 milhões de toneladas, um déficit de aproximadamente 6 milhões de toneladas.
Com o preço médio da saca de soja em R$ 139,71, segundo a Emater/RS-Ascar, o volume que deixou de ser produzido representa quase R$ 14 bilhões que poderiam circular na economia gaúcha.
A soja é um dos principais motores da economia do Estado e, em anos de safra cheia, responde por mais de 40% do Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária. Os efeitos de uma colheita menor, porém, ultrapassam as propriedades rurais e atingem diferentes setores econômicos.
Segundo o pesquisador Martinho Lazzari, do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão, a importância da soja vai além de sua participação direta na produção agrícola, devido à relação com diversos segmentos.
Entre eles estão a comercialização de insumos, máquinas e equipamentos, a indústria de processamento, a produção de óleo e biocombustíveis, além das atividades de armazenagem e transporte.
Lazzari explica que a renda gerada no campo também movimenta a economia por meio do consumo das famílias. Dessa forma, uma produção menor, especialmente quando provocada por condições climáticas adversas, pode reduzir a atividade econômica e afetar a arrecadação estadual.
Um exemplo da influência da agricultura sobre o desempenho econômico ocorreu em 2021, quando o Rio Grande do Sul registrou uma produção de 20,4 milhões de toneladas de soja. Naquele ano, o VAB da agropecuária cresceu 53%, contribuindo para que o Produto Interno Bruto (PIB) estadual avançasse 9,3%, acima dos 4,8% registrados pela economia brasileira.
No ano seguinte, uma forte estiagem provocou uma queda de 54% na produção de soja, que recuou para 9,4 milhões de toneladas. Como consequência, o VAB da agropecuária caiu 43%, contribuindo para a retração de 2,6% do PIB gaúcho.
Impacto sobre o comércio e os serviços
A relação entre produtividade agrícola e desenvolvimento econômico também é destacada pelo economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz. Segundo ele, cada R$ 1 gerado no campo movimenta outros R$ 3,20 fora dele, especialmente na indústria e nos serviços.
O economista do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa, Lucas Schifino, ressalta que a redução da produtividade diminui a renda dos produtores e, consequentemente, o consumo. Os efeitos podem ser sentidos em supermercados, restaurantes, lojas e prestadores de serviços, especialmente nos municípios do interior com forte presença da soja.
Segundo Schifino, regiões do norte do Estado, onde a cultura tem grande participação na economia, poderiam ampliar a geração de renda e o PIB regional caso alcançassem níveis mais elevados de produtividade.
Os impactos também atingem pequenos agricultores e empresários rurais, cuja renda depende diretamente do resultado das lavouras e influencia toda a cadeia econômica local.
Perdas também afetam a arrecadação
A redução da produção agrícola repercute no recolhimento de tributos ligados ao consumo e à circulação econômica. Conforme nota técnica da Farsul, as perdas provocadas por estiagens afetam a arrecadação de impostos federais, como PIS, Cofins e IPI.
A entidade estima que a mitigação dessas perdas por meio da irrigação poderia preservar entre R$ 1,45 bilhão e R$ 3,66 bilhões em impostos federais arrecadados no Estado durante um ciclo de seca.
Antônio da Luz afirma que os produtores gaúchos enfrentaram dificuldades para ampliar a irrigação ao longo dos últimos anos. Segundo ele, embora tenha ocorrido uma mudança nas condições para investimentos no setor, as perdas acumuladas comprometeram a capacidade financeira de muitos agricultores.
Dados da Farsul apontam que, desde 2020, estavam projetadas produções que chegariam a 227 milhões de toneladas de grãos, mas as colheitas somaram aproximadamente 178,5 milhões de toneladas. A diferença corresponde a 48,6 milhões de toneladas que deixaram de ser produzidas.
Em termos financeiros, a entidade estima que os produtores deixaram de faturar R$ 126,3 bilhões. Considerando os efeitos sobre os demais setores, esse montante poderia movimentar cerca de R$ 400 bilhões na economia gaúcha, equivalente a 49% do PIB estadual.
Endividamento dificulta investimentos no campo
As sucessivas frustrações de safra também prejudicam a capacidade dos produtores de investir em tecnologia e manejo. O coordenador do Levantamento de Safra da Agroconsult e do projeto Rally da Safra, Gildomar Lindemann, explica que a redução da geração de caixa obriga agricultores a diminuir custos e, em algumas propriedades, adotar práticas que limitam o potencial produtivo.
Ao mesmo tempo, o maior risco financeiro torna os credores mais cautelosos, restringindo a oferta de crédito ou elevando os custos dos financiamentos.
Esse cenário pode desencadear um ciclo de endividamento, inadimplência e dificuldade para custear a safra seguinte, comprometendo a recuperação da produtividade e reduzindo a circulação de recursos na economia estadual.
Gestão e tecnologia são desafios para a produtividade
Além das condições climáticas, especialistas apontam questões relacionadas à gestão das propriedades, ao planejamento e à adoção de tecnologias como fatores que ajudam a explicar o desempenho da soja gaúcha.
O engenheiro agrônomo Ricardo Balardin, integrante do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) e ex-professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), afirma que as sucessivas estiagens comprometeram a capacidade financeira dos produtores e reduziram os investimentos em tecnologia.
Para ele, também é necessário ampliar a profissionalização da gestão rural, com planejamento, consultoria agronômica e acompanhamento das inovações disponíveis no setor.
Balardin cita como exemplo regiões agrícolas de outros estados, onde a presença de empresas rurais com estruturas de gestão, governança e planejamento contribui para a busca de melhores resultados.
O especialista também chama atenção para fatores externos às propriedades, como os custos logísticos e a dependência da importação de fertilizantes. Segundo ele, a competitividade agrícola depende de toda a cadeia produtiva, desde a aquisição de insumos até o transporte e a comercialização da safra.
Planejamento pode reduzir riscos e melhorar resultados
O agricultor Paulo Roberto Vargas, vice-presidente do Sindicato Rural de Carazinho e integrante da diretoria da Farsul, destaca que uma boa produtividade pode gerar benefícios para toda a comunidade. A renda obtida nas lavouras movimenta lojas, oficinas, prestadores de serviços e profissionais de diferentes áreas.
Na última safra de verão, Vargas colheu cerca de 62 sacas de soja por hectare. Em outras temporadas, já alcançou aproximadamente 83 sacas por hectare, resultado que atribui à combinação entre condições climáticas favoráveis, planejamento e manejo adequado.
O produtor explica que o trabalho começa meses antes do plantio, com análise do solo, definição dos fertilizantes, escolha das variedades, regulagem do maquinário e planejamento das operações agrícolas.
A estratégia também inclui o uso de cultivares com ciclos diferentes para distribuir riscos relacionados ao estresse hídrico e às condições climáticas ao longo da safra.
Apesar dos resultados obtidos em anos favoráveis, Vargas ressalta que a instabilidade climática continua sendo um dos principais desafios da agricultura gaúcha. O planejamento e o plantio direto na palha ajudam a proteger o solo e a reduzir riscos, mas não eliminam os efeitos de uma estiagem prolongada.
O cenário evidencia que o aumento da produtividade da soja no Rio Grande do Sul depende de uma combinação de fatores, incluindo condições climáticas, capacidade de investimento, acesso à tecnologia, gestão profissional e infraestrutura. Além dos resultados no campo, a melhoria do desempenho agrícola tem potencial para fortalecer o comércio, os serviços, a arrecadação pública e o crescimento econômico do Estado.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: Correio do Povo
