A história de Cruz Alta guarda um capítulo pouco conhecido por muitos moradores: a presença de uma comunidade judaica que, durante décadas, teve papel importante na vida religiosa, social e cultural do município. Com raízes que remontam a aproximadamente 1920, essa coletividade chegou a reunir entre 15 e 20 famílias em seu período de maior expressão, mantendo espaços próprios de convivência e tradições que marcaram a história local.

A chegada de famílias de origem europeia a Cruz Alta esteve relacionada a diferentes fatores, entre eles a estrutura ferroviária. A construção da linha que ligaria o município a Santa Maria começou em 1891 e contribuiu para tornar a cidade um ponto de interesse para a fixação de imigrantes. A Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer du Brésil, responsável pela concessão ferroviária, tinha como fundador Franz Phillipson, que também atuava como administrador da empresa e vice-presidente da Jewish Colonization Association (ICA), organização ligada à imigração judaica no Rio Grande do Sul.
A comunidade judaica cresceu ao longo das décadas seguintes e consolidou uma estrutura que ia muito além das atividades religiosas. Na Rua Duque de Caxias, no centro da cidade, funcionava uma sinagoga em prédio próprio, com amplo salão utilizado para cerimônias e encontros sociais. O local também abrigava uma biblioteca com centenas de livros em ídiche e português, além de um grupo de teatro organizado sob a direção de um professor vindo da Europa.
As apresentações teatrais ocorreram durante cerca de três anos e mobilizaram atores e atrizes da comunidade. A venda de ingressos ajudava a remunerar o diretor, que destinava os recursos à família, com o objetivo de possibilitar sua imigração. A iniciativa demonstra como a cultura e a solidariedade faziam parte da organização daquela coletividade.
Outro registro importante dessa presença foi o cemitério judaico, mantido pela própria comunidade durante muitos anos. O espaço seguia as tradições religiosas relacionadas aos sepultamentos e recebia não apenas moradores de Cruz Alta, mas também judeus de outros pequenos núcleos urbanos do interior gaúcho. Seus túmulos testemunham a dimensão que essa comunidade alcançou e os vínculos que mantinha com outras localidades.
O período de maior destaque ocorreu entre as décadas de 1950 e 1960. Naquela época, Cruz Alta também funcionava como referência para comunidades judaicas de municípios como Ijuí e Santo Ângelo, cujos integrantes participavam dos rituais religiosos realizados na cidade. A partir desse período, porém, a saída de famílias se intensificou, reduzindo gradualmente a presença judaica no município.
A antiga sinagoga foi demolida, e o terreno acabou vendido. No local onde funcionava o espaço religioso, na Rua Duque de Caxias, encontra-se atualmente a clínica Oftalmodonto. Apesar das transformações urbanas e da diminuição da comunidade, a história permanece registrada nos relatos, nos nomes das famílias e nos espaços que fizeram parte dessa trajetória.
Entre as famílias judaicas que viveram na região estavam Schostack, Ricachenevsky, Plotnick, Perelman, Pomenarick, Gitz, Nudelman, Henkin, Nullman, Belfer, Saute, Gersenson, Knijinick, Gurski, Brostein, Plavinik, Trompka e Chenkman.
A história revela uma dimensão pouco lembrada da identidade cruz-altense: a contribuição de uma comunidade que construiu espaços religiosos, promoveu atividades culturais, manteve uma biblioteca e estabeleceu relações com outras cidades do interior do Rio Grande do Sul. Conhecer esse passado é também reconhecer a diversidade de origens que ajudaram a formar a história de Cruz Alta.
Que Deus continue abençoando sempre as famílias judaicas que marcaram a história cruz-altense, preservando suas tradições, sua cultura e seu legado para as futuras gerações. Que Deus abençoe o Estado de Israel e seu povo.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fotos: Instituto Cultural Judaico Marc Chagall
