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    Início » Possível fortalecimento do El Niño gera alarmismo nas redes, mas especialistas descartam repetição de catástrofe global de 1877
    Clima

    Possível fortalecimento do El Niño gera alarmismo nas redes, mas especialistas descartam repetição de catástrofe global de 1877

    Fernando KopperFernando Kopper22 de maio de 202604 Mins Read39

    O possível fortalecimento do El Niño nos próximos meses tem provocado uma onda de publicações alarmistas nas redes sociais, com comparações ao episódio extremo de 1877-1878, considerado um dos mais devastadores da história climática mundial.

    Nos últimos dias, mensagens passaram a circular afirmando que o planeta poderia enfrentar uma “catástrofe global” semelhante à pandemia, em razão de projeções internacionais que apontam a possibilidade de um El Niño forte ou muito forte em 2026.

    Especialistas, porém, alertam que comparar diretamente o possível evento atual com o fenômeno ocorrido no século XIX é incorreto e desconsidera as profundas diferenças tecnológicas, científicas e sociais entre as duas épocas.

    O El Niño de 1877-1878 ficou marcado como um dos mais intensos já registrados. Na época, o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial alterou drasticamente os padrões climáticos em diferentes continentes, provocando secas severas, enchentes e crises alimentares.

    Na Ásia, especialmente na Índia, China e regiões do Sudeste Asiático, milhões de pessoas sofreram com perdas agrícolas extremas e fome. Estudos históricos apontam que dezenas de milhões morreram em consequência direta ou indireta das secas e da escassez de alimentos.

    No Brasil, o impacto mais grave ocorreu no Nordeste, durante a chamada Grande Seca de 1877-1879. Estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco enfrentaram colapso agrícola, morte de rebanhos, fome e deslocamentos em massa da população.

    Os registros históricos relatam açudes secos, rios desaparecendo e milhares de pessoas migrando em busca de água e comida. Historiadores estimam que centenas de milhares morreram durante a tragédia climática e humanitária.

    Apesar das comparações que circulam nas redes sociais, meteorologistas destacam que o mundo atual possui condições completamente diferentes das existentes há quase 150 anos.

    Em 1877, não existiam satélites meteorológicos, modelos climáticos computadorizados, sistemas modernos de monitoramento oceânico ou previsões sazonais capazes de antecipar a formação do fenômeno.

    Atualmente, centros meteorológicos acompanham diariamente a temperatura dos oceanos e conseguem prever com meses de antecedência a evolução do El Niño, permitindo ações preventivas e emissão de alertas.

    Além disso, o planeta conta hoje com redes globais de comunicação instantânea, sistemas de defesa civil, infraestrutura hospitalar, logística internacional de alimentos e capacidade de resposta muito superior à do século XIX.

    Especialistas ressaltam ainda que grande parte das mortes ocorridas em 1877 não foi causada apenas pelo clima, mas também pela precariedade sanitária, ausência de infraestrutura, dificuldades de transporte, pobreza extrema e incapacidade dos governos da época em responder rapidamente às crises.

    Outro fator importante apontado pelos pesquisadores é que o clima global do século XIX era muito diferente do atual.

    Naquele período, o planeta ainda sofria influência da chamada Pequena Idade do Gelo, caracterizada por temperaturas mais baixas. Além disso, grandes erupções vulcânicas, como as dos vulcões Monte Tambora e Krakatoa, alteraram significativamente o clima global ao longo do século XIX.

    Hoje, o cenário climático é marcado pelo aquecimento global provocado pela atividade humana. Segundo especialistas, isso pode intensificar alguns eventos extremos, mas não significa automaticamente a repetição de uma tragédia semelhante à registrada em 1877.

    O Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos já alertou que o Rio Grande do Sul pode registrar volumes de chuva acima da média caso o El Niño se fortaleça nos próximos meses, principalmente durante a primavera e o verão.

    Mesmo assim, pesquisadores afirmam que ainda não é possível prever impactos específicos ou afirmar que ocorrerá um novo desastre climático semelhante ao registrado no Estado em 2024.

    Meteorologistas reforçam que o fenômeno exige monitoramento constante e preparação preventiva, mas alertam que o uso de comparações históricas extremas fora de contexto pode gerar desinformação e alarmismo desnecessário nas redes sociais.

    Com informações: Jornalista Fernando Kopper
    Fonte: G1/MetSul

    Fernando Kopper

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