A crise financeira da Cotribá expôs um passivo bilionário que atinge bancos públicos e privados, empresas do agronegócio e milhares de produtores rurais associados à cooperativa gaúcha. Conforme informações anexadas ao pedido de recuperação judicial rejeitado pela Justiça do Rio Grande do Sul, a cooperativa soma dívidas de R$ 1,4 bilhão com 20.614 credores.
A relação de débitos, assinada pelo presidente da cooperativa, Carlos Diehl, reúne mais de 78 mil registros distribuídos em aproximadamente 1,7 mil páginas. Os documentos apontam que R$ 1,3 bilhão correspondem a créditos quirografários, envolvendo 19.624 credores. Outros R$ 99,7 milhões são de garantias reais e R$ 10,2 milhões referem-se a créditos trabalhistas.
Embora a lista não detalhe individualmente a categoria de cada credor, os dados indicam que grande parte do passivo está concentrada em produtores rurais associados à cooperativa. Segundo dirigentes da própria Cotribá, os débitos com produtores podem chegar a aproximadamente R$ 900 milhões.
Há casos de pequenos créditos inferiores a R$ 10 mil, mas também registros de dívidas elevadas. Em um dos casos apontados, a cooperativa deve R$ 2,5 milhões a um único CPF.
Bancos concentram mais de R$ 527 milhões em créditos
Entre os principais credores aparecem bancos públicos, privados e cooperativas de crédito, que juntos possuem exposição superior a R$ 527 milhões.
O maior credor financeiro é o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, com cerca de R$ 134,8 milhões a receber da cooperativa. Os contratos foram firmados entre 2020 e 2025 e parte das dívidas começa a vencer em outubro deste ano.
O BRDE foi um dos financiadores da fábrica de ração inaugurada pela Cotribá em Ibirubá em agosto de 2024, empreendimento que recebeu aproximadamente R$ 87 milhões em financiamentos.
Na sequência da lista aparecem a Caixa Econômica Federal, com R$ 94,6 milhões; Banco do Brasil, com R$ 45,6 milhões; Santander, com R$ 46,7 milhões; Sicredi Cooperativa Centro Leste, com R$ 38,9 milhões; e Banrisul, com R$ 37,6 milhões.
Também constam entre os principais credores financeiros instituições como Banco ABC Brasil, Bradesco, Banco Votorantim, Banco Industrial e Banco Cooperativo Sicredi.
Empresas do agronegócio também aparecem entre os maiores credores
Além das instituições financeiras, grandes companhias do agronegócio figuram entre os principais credores da cooperativa.
A Ecoagro possui ao menos R$ 93,2 milhões a receber da Cotribá. A empresa participou de diversas operações da cooperativa no mercado de capitais por meio da emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).
Parte dessas operações apresenta inadimplência, incluindo um CRA de R$ 150 milhões emitido em 2022 e lastreado em CPR-Fs da própria cooperativa.
O fundo Cotribá Fiagro, gerido pela Eco Gestão de Ativos, também reflete o agravamento da inadimplência. Em março deste ano, o fundo possuía carteira de R$ 246,3 milhões, dos quais R$ 82,9 milhões estavam com atraso superior a 90 dias.
Entre as empresas de insumos agrícolas, a Ihara possui cerca de R$ 50,6 milhões a receber. A Cibra aparece com aproximadamente R$ 27 milhões em créditos.
Multinacionais do setor também possuem valores elevados a receber da cooperativa, entre elas Bayer, com mais de R$ 34,3 milhões; Basf, com R$ 20 milhões; Corteva, também com R$ 20 milhões; além de FMC, ICL e Syngenta.
Disputa judicial se intensifica no Tribunal de Justiça
Enquanto tenta viabilizar a recuperação judicial, a Cotribá enfrenta uma disputa jurídica no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.
A desembargadora Eliziana Silveira Perez suspendeu, em 30 de abril, os efeitos da decisão favorável obtida pela cooperativa em primeira instância após recurso apresentado pelo Banco Votorantim.
Mesmo após a suspensão, o juiz Eduardo Busanello entendeu inicialmente que ainda seria possível prosseguir com a elaboração de um laudo de constatação prévia no processo.
A medida foi contestada pelo Banco Votorantim, que argumentou que os efeitos da decisão haviam sido totalmente suspensos pela instância superior.
Posteriormente, a desembargadora reiterou sua decisão e afirmou que o juízo de primeira instância deveria cumprir integralmente a determinação do tribunal. Segundo Perez, a realização do laudo poderia gerar despesas desnecessárias à cooperativa e aos credores em um momento de crise financeira.
A magistrada também classificou como inadequada a tentativa de utilizar o laudo para influenciar futuras decisões da instância superior sobre o caso.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: AG Feed
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