Gritos, vozes, objetos que se movimentam, aversão a símbolos religiosos e até relatos de pessoas que afirmam falar idiomas desconhecidos são alguns dos fenômenos associados ao imaginário popular sobre possessões. Na Serra Gaúcha, situações desse tipo passaram a ser acompanhadas oficialmente pela Igreja Católica após a nomeação, em julho, do padre Daniel D’Agnoluzzo Zatti para o Ministério do Exorcismo da Diocese de Caxias do Sul.
O sacerdote é o primeiro padre da Serra Gaúcha nomeado para exercer a função e já começou a receber pessoas que procuram a Igreja relatando experiências que consideram inexplicáveis ou de possível origem sobrenatural.
Embora o tema seja frequentemente retratado de forma dramática pelo cinema, o trabalho do exorcista segue critérios definidos pela Igreja. Antes de qualquer ritual, os casos passam por um processo de investigação e discernimento.
Segundo padre Daniel, muitas pessoas chegam ao ministério convencidas de que estão diante de uma manifestação sobrenatural. Os relatos incluem barulhos dentro de residências, situações consideradas incomuns e experiências que os envolvidos não conseguem explicar.
O sacerdote afirma, entretanto, que a maioria dos casos investigados está relacionada a questões emocionais ou de saúde mental. Por isso, o Ministério do Exorcismo conta com profissionais da área da saúde, incluindo psicólogos e psiquiatras, que participam da avaliação.
Apenas uma pequena parcela chega ao exorcismo
De acordo com padre Daniel, a investigação é fundamental para diferenciar situações que podem ter explicações médicas, psicológicas ou sociais de casos que, segundo os critérios da Igreja, possam apresentar características consideradas extraordinárias.
A maior parte dos atendimentos termina nessa etapa. Conforme o sacerdote, apenas entre 5% e 10% das pessoas que procuram o ministério chegam ao estágio em que o ritual de exorcismo é considerado.
A Igreja Católica segue o rito oficial publicado pelo Vaticano em 1998, que atualizou um protocolo existente desde 1614. Entre os fenômenos que podem ser considerados durante o discernimento estão relatos de falar idiomas desconhecidos, demonstrar informações que aparentemente não poderiam ser conhecidas pela pessoa, apresentar força física incompatível com suas condições e manifestar forte aversão a símbolos sagrados.
Mesmo diante desses relatos, padre Daniel afirma que não existe uma fórmula capaz de determinar automaticamente a presença de uma força sobrenatural. A avaliação considera o conjunto da história e das circunstâncias envolvendo cada pessoa.
Relato de exorcismo em Caravaggio
A Serra Gaúcha também possui um antigo relato envolvendo um suposto caso de possessão. O episódio teria ocorrido na década de 1940, no Santuário de Caravaggio, em Farroupilha.
Segundo o atual reitor do santuário, padre Ricardo Fontana, uma mulher teria sido considerada possessa e submetida a um ritual conduzido pelo padre Teodoro Portolan, que comandava o local naquele período.
O relato descreve uma longa sequência de orações para tentar libertar a mulher. Egídio Viecelli, atualmente com 94 anos, é apontado como a última testemunha viva do episódio. Ainda jovem, ele teria participado das rodas de oração organizadas pelo padre Teodoro.
Segundo Egídio, as preces se prolongaram por dias. O relato transmitido ao longo das décadas afirma que, após horas de orações e do ritual religioso, a mulher teria sido libertada.
O episódio permanece como uma das histórias mais marcantes relacionadas ao sobrenatural na região e integra a memória oral do Santuário de Caravaggio.
Exorcismo é tratado como missão de misericórdia
Apesar da atmosfera de mistério que envolve os relatos de possessão e exorcismo, padre Daniel afirma que não encara a função com medo. Para ele, o trabalho representa uma missão de auxílio espiritual às pessoas que procuram a Igreja diante de experiências que consideram inexplicáveis.
O sacerdote define o Ministério do Exorcismo como um “ministério de caridade e de misericórdia”. Segundo ele, o objetivo é acolher, investigar e acompanhar cada caso com responsabilidade, sem descartar a possibilidade de uma dimensão espiritual.
Assim, entre relatos de vozes, fenômenos considerados inexplicáveis e histórias de possíveis possessões, o novo ministério da Diocese de Caxias do Sul passa a lidar diretamente com uma das áreas mais misteriosas da tradição católica: a investigação de acontecimentos que, para algumas pessoas, podem ultrapassar os limites daquilo que a ciência consegue explicar.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: G1
Foto: IA
