O gaúcho Tiago Rodrigues Marques, de 41 anos, morreu no último domingo (24) durante um ataque de drone na região de Donbas, no leste da Ucrânia. Morador de Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, ele estava no país desde março e morreu justamente no dia em que completava 41 anos.
Segundo a esposa, Marili Rodrigues, de 40 anos, Tiago havia retornado à Ucrânia com a expectativa de conseguir melhores condições financeiras para ajudar a custear o tratamento da filha do casal, de 5 anos, diagnosticada com transtorno do espectro autista. A família era contrária à viagem e, desta vez, ele teria embarcado sem avisar os parentes.
Tiago já havia permanecido na Ucrânia por aproximadamente 11 meses entre 2024 e 2025, quando atuou em uma legião internacional. Na segunda passagem pelo país, segundo a esposa, ele teria sido recrutado pelo Exército Ucraniano após receber uma promessa de remuneração e de condições diferentes das enfrentadas anteriormente.
Marili relata que Tiago acreditava que o trabalho poderia melhorar a situação financeira da família e contribuir para o tratamento da filha. Segundo ela, porém, o valor anunciado inicialmente como remuneração teria causado confusão.
“Ele foi para lá em busca de condições melhores para o tratamento, porque eles ofereciam um salário de R$ 50 mil. Só que, quando chegaram lá, era 50 mil grívnias, não euros”, relatou a esposa.
Além do salário, havia ainda pagamentos adicionais por missão. Marili afirma que um dos valores chegou a ser depositado em uma conta bancária mantida na Ucrânia, mas a família não possui acesso aos recursos.
Neste momento, entretanto, a principal preocupação dos familiares é localizar e trazer o corpo de Tiago ao Brasil.
Retorno à Ucrânia foi mantido em segredo
De acordo com Marili, a decisão de retornar à zona de conflito ocorreu mesmo diante dos pedidos da família para que ele permanecesse no Brasil. A filha do casal estaria passando por uma fase importante do tratamento, o que aumentava a preocupação dos familiares com a nova viagem.
Segundo ela, Tiago deixou a residência dizendo que iria trabalhar normalmente e seguiu para o aeroporto sem comunicar que estava retornando à Ucrânia.
“Ele nem nos falou. Saiu para ir trabalhar normal, pegou o voo e foi. No dia, ele foi escondido até da família, porque sabia que não íamos aceitar que ele fosse”, contou Marili.
Última mensagem foi enviada durante o ataque
Na madrugada de 24 de agosto, por volta das 4h30, pelo horário de Brasília, Tiago enviou uma mensagem para a esposa informando que estava sob ataque e que tentaria encontrar um local seguro.
“Era 4h30 da manhã quando ele me avisou que estava sob ataque, que ia procurar um lugar seguro e qualquer coisa dava notícias. E nunca mais respondeu o celular”, relatou.
Dois dias depois, na quarta-feira (26), Marili recebeu a informação sobre a morte do marido por meio de brasileiros que atuavam com ele no conflito. Conforme os relatos recebidos pela família, o ataque ocorreu a cerca de nove quilômetros de uma região considerada livre de combates.
Até a publicação das informações, o corpo de Tiago ainda não havia sido recuperado.
A família afirma ter recebido orientação para buscar ajuda rapidamente diante dos riscos existentes na região. Marili encaminhou um ofício ao Ministério das Relações Exteriores solicitando apoio da representação diplomática brasileira para confirmar oficialmente a morte e auxiliar na localização e recuperação do corpo.
Região de Donbas é um dos principais focos da guerra
Donbas fica no leste da Ucrânia e é formada principalmente pelas regiões de Donetsk e Luhansk. A área possui importância estratégica, econômica e militar e se tornou um dos principais focos do conflito entre Rússia e Ucrânia.
O Ministério das Relações Exteriores informou que a Embaixada do Brasil em Kiev permanece à disposição para prestar assistência consular aos brasileiros que necessitarem. O Itamaraty ressaltou, porém, que situações envolvendo cidadãos brasileiros incorporados às forças armadas de outros países possuem particularidades relacionadas às obrigações assumidas no alistamento e às condições encontradas nas áreas de operação.
O governo brasileiro também informou que vem emitindo alertas sobre os riscos de viagens à Ucrânia. Desde maio de 2025, o Itamaraty desaconselha deslocamentos de brasileiros para regiões próximas às frentes de combate e, posteriormente, passou a recomendar que cidadãos recusem ofertas de trabalho ou participação em forças armadas estrangeiras.
Tiago deixa a esposa, uma filha de 5 anos e duas enteadas. A família agora busca apoio para confirmar oficialmente a morte e viabilizar o retorno do corpo ao Brasil.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
