A probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul ultrapassou 90%, segundo nova projeção do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA), divulgada na quinta-feira. A mesma projeção aponta 75% de possibilidade de que o fenômeno alcance a maior intensidade já registrada desde 1950.
O cenário climático aumenta a preocupação com a próxima safra brasileira de soja. Eventuais perdas provocadas pelo El Niño podem chegar a 12 milhões de toneladas em um cenário de estresse semelhante ao registrado em 2015. A estimativa foi apresentada por Alexandre Mendonça de Barros, sócio em Agro Negócios da EY Brasil, durante videocast promovido pelo Banco do Brasil e pelo BB Seguros.
A projeção considera os ganhos de produtividade acumulados desde 2015, mas também uma menor utilização de tecnologia e fertilizantes na atual temporada. Segundo o consultor, os impactos do El Niño devem ocorrer de maneira diferente entre as regiões brasileiras.
O Sul do Brasil, além de áreas de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, apresenta menor risco de frustração de safra, embora o excesso de chuva possa dificultar o plantio e os trabalhos no campo. Já as regiões Centro, Norte e Nordeste concentram maior risco climático de perdas, agravado pelo crescimento da participação dessas áreas na produção agrícola nacional nos últimos anos.
A evolução do fenômeno também chama atenção. O monitoramento do NOAA apontou o fim do La Niña em abril e indicou a possibilidade de formação do El Niño entre maio e julho, inicialmente estimada em 61%. Em maio, a probabilidade havia subido para 82%. Em junho, o El Niño já era considerado a condição observada, ainda em estágio inicial, com projeções de rápido fortalecimento em direção ao final de 2026 e ao verão de 2026/2027.
Em agosto, o fenômeno se intensificou ainda mais, com anomalias da temperatura da superfície do mar superiores a 3°C no Pacífico Equatorial Leste.
Os efeitos previstos também variam conforme a região. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Norte e Nordeste podem registrar chuvas abaixo da média, o que pode contribuir para a redução dos níveis dos rios e afetar a navegação, o acesso a comunidades, a atividade pesqueira e o abastecimento de água.
Nas áreas mais ao sul do país, a tendência é de chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes e de danos a estruturas utilizadas pela pesca e pela aquicultura. Em outras regiões, o aumento das temperaturas também pode exigir maior atenção às condições da água e dos cultivos.
O risco climático já começa a influenciar o mercado internacional. Segundo Mendonça de Barros, as incertezas sobre a produção brasileira se somam às perdas na safra de milho da Europa e às dúvidas sobre a produtividade nos Estados Unidos. Com esse cenário, fundos de investimento voltaram a ampliar posições compradas em soja, milho, trigo e algodão.
Na China, compradores estariam antecipando a demanda por soja para janeiro, enquanto os prêmios de exportação no Brasil aumentaram. Para o consultor, o movimento indica que o mercado já considera a possibilidade de redução da oferta.
Diante das incertezas, a estratégia de comercialização deve levar em conta a localização da propriedade e o risco produtivo. Em regiões mais vulneráveis ao clima, a orientação é evitar vendas antecipadas em volumes que possam não ser colhidos. Já em áreas com condições climáticas mais favoráveis e produtores com maior nível tecnológico, pode haver oportunidade para novas vendas diante da recuperação dos preços.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: Uol/Correio do Povo
