Há 46 anos, Cruz Alta escrevia um dos capítulos mais importantes de sua história cultural. Em 1981, nascia a Coxilha Nativista, festival que ultrapassou as fronteiras do município para se tornar um dos mais tradicionais e respeitados eventos de música nativista do Rio Grande do Sul. Ao longo de quase cinco décadas, o festival consolidou-se como um verdadeiro patrimônio da cultura gaúcha, reunindo gerações de compositores, intérpretes, instrumentistas e poetas, preservando a identidade do povo rio-grandense por meio da música.
Neste ano, entre os dias 27 de julho e 1º de agosto, Cruz Alta voltará a ser a capital da música nativista com a realização da 46ª Coxilha Nativista, da 9ª Coxilha Instrumental e da 40ª Coxilha Piá. Antes mesmo da abertura oficial, a cidade já entrou no clima do festival com mais uma edição do Coxilha Vai às Ruas, projeto que levou apresentações musicais para diferentes pontos do município, aproximando a comunidade da essência do evento e reforçando sua importância para a cultura regional.
A história da Coxilha começou em um período em que os festivais nativistas ganhavam força no Rio Grande do Sul. Cruz Alta decidiu criar um evento capaz de valorizar os compositores, incentivar novos talentos e preservar as tradições gaúchas. Assim, em 1981, o antigo Cine Rio recebeu a primeira edição do festival, que rapidamente surpreendeu pela organização e pelo grande interesse do público.
A expectativa dos organizadores foi superada logo na noite de estreia. O Cine Rio, com capacidade para aproximadamente 1.300 pessoas, recebeu cerca de 2 mil espectadores. Mesmo com o local completamente lotado, o público permaneceu até o encerramento das apresentações, demonstrando que o festival nascia destinado a ocupar um lugar de destaque entre os maiores eventos culturais do Estado.
Grande parte do encanto daquela primeira edição também esteve na cenografia. O responsável pela decoração foi o artista Olimpio Copetti, que realizou uma ampla pesquisa sobre a história do Rio Grande do Sul entre os anos de 1720 e 1860 para reproduzir com fidelidade os costumes da época. Couros crus, Santa Fé, Taquaruçu e Capim, além de palmeiras, taquaras e vegetação típica, deram forma a um autêntico bolicho de campanha instalado no palco principal. O trabalho artístico também transformou o pórtico de entrada, o bar, o rancho de recepção e outros espaços do Parque de Exposições, proporcionando ao público uma verdadeira imersão na cultura campeira.
A programação da primeira Coxilha reuniu fases local, regional e estadual. Das 150 composições inscritas, apenas 27 foram selecionadas para disputar o festival, evidenciando o elevado nível técnico das obras apresentadas. A comissão julgadora foi formada por personalidades de reconhecida atuação no tradicionalismo gaúcho, entre elas José Vassuer, Nair Vieira Soares, Mário Barbará, Milton Souza e Laurinha Garcês.
O palco da primeira edição também recebeu artistas que mais tarde se tornariam referências da música regional. Entre eles estavam Pedro Ortaça e Grupo Pesquisa, de Santa Maria, além de um jovem Renato Borghetti, que participou integrando três grupos musicais. Ao longo das décadas seguintes, a Coxilha passaria a receber alguns dos maiores nomes da música gaúcha, como Luiz Carlos Borges, Garotos de Ouro e inúmeros intérpretes, compositores e instrumentistas que ajudaram a consolidar o festival como uma das maiores vitrines da cultura tradicionalista.
A grande vencedora da edição inaugural foi “Léguas de Solidão”, composição de Humberto Gabbi Zanatta e Luiz Carlos Borges, interpretada por Luiz Carlos Borges e Grupo Horizonte. A canção retrata a vida dos antigos carreteiros do Rio Grande do Sul, exaltando sua coragem, as longas jornadas pelos campos e a contribuição desses personagens para o desenvolvimento do Estado. A obra tornou-se um clássico da música nativista e permanece como um dos maiores símbolos da história da Coxilha.
Na mesma edição, Velho Tripeiro, de Anildo Lamaison de Moraes, recebeu o prêmio de Melhor Pesquisa; o Grupo Horizonte conquistou o troféu de Melhor Conjunto Instrumental; João de Almeida Neto foi eleito o Melhor Intérprete Masculino; Oristela Alves, a Melhor Intérprete Feminina; e Gaita Gaudéria, de Horácio Côrtes e José Sarturi, interpretada pelo Grupo Nativo Reduções, foi escolhida como a Música Mais Popular. As canções participantes foram reunidas em um disco de vinil, contribuindo para difundir o festival e a música produzida em Cruz Alta por todo o Rio Grande do Sul.
A primeira edição também ficou marcada por um momento de profunda tristeza. Durante o acampamento instalado no Parque de Exposições, o jovem Gustavo Simões Lopes, de Pelotas, passou mal em decorrência de um envenenamento, foi encaminhado ao Hospital Nossa Senhora de Fátima, mas não resistiu. O episódio comoveu participantes, organizadores e o público, tornando-se um dos momentos mais lembrados da história do festival.
Ao longo de seus 46 anos, a Coxilha Nativista tornou-se muito mais do que um concurso de músicas. O festival ajudou a preservar a poesia regional, revelou talentos, valorizou compositores, fortaleceu a cultura gaúcha e transformou Cruz Alta em uma referência da música nativista. Com a criação da Coxilha Piá, voltada às novas gerações, e da Coxilha Instrumental, dedicada à excelência dos músicos, o evento ampliou sua missão de manter viva a tradição e garantir que o legado da música gaúcha continue sendo transmitido às futuras gerações.
Em 2026, a Coxilha Nativista chega à sua 46ª edição reafirmando seu papel como um dos maiores festivais do gênero no Brasil. Mais do que celebrar a música, o evento celebra a história, a identidade e o orgulho do povo gaúcho, mantendo viva uma tradição iniciada em 1981 e que segue emocionando milhares de pessoas a cada nova edição.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Foto: Acervo Coxilha Nativista
