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    Com comida cara, brasileiros apelam para carcaça de frango e espinha de porco: ‘A gente inventa’

    Fernando KopperFernando Kopper13 de março de 202504 Mins Read24
    A alta no preço dos alimentos tem forçado famílias de baixa renda a adotar novas estratégias para manter a despensa abastecida. No Parque Santo Antônio, na periferia de São Paulo, Ionara de Jesus, 43 anos, busca alternativas para alimentar seus três filhos, incluindo uma jovem acamada de 24 anos que necessita de uma alimentação específica. Com uma renda mensal de R$ 1.500, ela substitui produtos tradicionais por opções mais baratas, raciona itens essenciais e conta com doações de cestas básicas para complementar a alimentação da família. “A gente tem que escolher o que levar pra casa. Antes, eu comprava o que meus filhos gostavam, hoje eu compro o que dá pra pagar”, lamenta.
    A inflação dos alimentos, que acumulou alta de 7,12% em 12 meses até fevereiro, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), impacta diretamente o orçamento das famílias de baixa renda, que destinam a maior parte dos seus ganhos à alimentação. O governo federal tem adotado medidas para tentar amenizar os impactos, como a isenção de impostos sobre itens da cesta básica e o reajuste do Bolsa Família. No entanto, especialistas alertam que fatores externos, como as mudanças climáticas, a valorização do dólar e a alta nos combustíveis, têm contribuído para a elevação dos preços dos alimentos.
    No supermercado, Ionara improvisa para conseguir manter uma dieta minimamente equilibrada. “O feijão carioca ficou caro, então compro o fradinho, que rende mais e é mais barato. O arroz é o mais barato que eu encontrar no dia. Carne vermelha? Nem lembro a última vez que comprei”, conta. A família passou a consumir mais ovos, frango e cortes considerados menos nobres, como carcaça de frango e suã. Até o café foi substituído por chá ou diluído para render mais.
    Situação semelhante ocorre na casa de Luiz Benedito, 40 anos, motorista de aplicativo e pai de dois filhos. Ele viu seu poder de compra encolher nos últimos meses e teve que mudar os hábitos de consumo. “A gente não pode mais fazer compra como antes. Agora eu vou no atacado, compro em grande quantidade e divido com meus irmãos, porque sai mais barato. Mesmo assim, tem coisa que a gente simplesmente parou de comprar”, explica. A carne bovina deu lugar ao frango e, muitas vezes, ao ovo. “Quando tem carne, é moída ou de segunda. Picanha só na TV”, brinca.
    A desigualdade alimentar tem sido um tema de preocupação entre especialistas. De acordo com a advogada e pesquisadora de soberania alimentar Léa Vidigal, a dificuldade de acesso a uma alimentação equilibrada pode trazer impactos negativos a longo prazo, principalmente para as crianças. “A desnutrição infantil é uma consequência direta da insegurança alimentar. O consumo reduzido de proteínas e vitaminas pode comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo dos mais jovens”, alerta. Segundo ela, a inflação dos alimentos afeta desproporcionalmente as famílias de menor renda, que têm menos alternativas para contornar a situação.
    O economista André Braz, do FGV-Ibre, reforça essa análise, destacando que o peso da inflação é maior para quem ganha menos. “Famílias de baixa renda gastam a maior parte do seu orçamento com alimentação e transporte. Quando os preços sobem, essas pessoas têm pouca margem para cortar gastos e acabam reduzindo a qualidade da alimentação”, explica. Ele aponta que, enquanto famílias mais abastadas conseguem diversificar seus gastos e ajustar seus orçamentos, os mais pobres sentem o impacto imediato nos itens mais básicos.
    Em meio a esse cenário desafiador, famílias como a de Ionara e Luiz seguem buscando alternativas para driblar a inflação e garantir que seus filhos não passem fome. “A gente se vira como pode. O importante é não deixar faltar nada para eles”, afirma Ionara. Enquanto isso, especialistas defendem que medidas estruturais são necessárias para garantir que o direito à alimentação não seja comprometido e que a inflação dos alimentos não continue ampliando a desigualdade social no país.
    Com informações: Jornalista Fernando Kopper
    Fonte: Uol
    Fernando Kopper

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