O Brasil ampliou fortemente as importações de diesel da Rússia após o agravamento da guerra no Oriente Médio, cenário que já provoca reflexos diretos na economia do Rio Grande do Sul, especialmente no agronegócio, no transporte e nos custos de produção agrícola.
Dados do sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que Rússia e Estados Unidos passaram a liderar o fornecimento do combustível ao mercado brasileiro nos últimos meses.
Entre março e abril, o Brasil importou US$ 1,76 bilhão em diesel. Desse total, US$ 1,43 bilhão tiveram origem na Rússia, o equivalente a 81,25% das compras externas do produto. Apenas em abril, a dependência brasileira do diesel russo aumentou ainda mais, chegando a 89,84% das importações do combustível no mês.
Antes do conflito no Oriente Médio, o Brasil ainda mantinha parte das compras vindas de países como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Com a instabilidade internacional e o avanço da crise geopolítica, o mercado brasileiro passou a buscar alternativas para garantir o abastecimento interno.
O cenário já provoca preocupação no Rio Grande do Sul. Estudo divulgado pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul aponta que a alta do diesel deve gerar um custo adicional de aproximadamente R$ 612 milhões ao agronegócio gaúcho.
Segundo o levantamento, o preço do diesel S10 no Estado registrou alta superior a 21% desde o início do conflito no Oriente Médio, afetando diretamente operações agrícolas, transporte da produção e custos logísticos.
As culturas mais impactadas são soja, arroz, milho e trigo, que dependem fortemente do combustível para abastecimento de tratores, colheitadeiras e transporte da safra até cooperativas, armazéns e portos. Somente a soja deve acumular impacto superior a R$ 313 milhões nos custos operacionais, enquanto o arroz pode registrar prejuízo próximo de R$ 171 milhões.
Além do aumento do combustível, produtores rurais também passaram a relatar dificuldades no abastecimento durante períodos de colheita em algumas regiões do Estado. Entidades do setor alertam que o problema ocorre justamente em um momento decisivo para a agricultura gaúcha, entre a retirada da safra de verão e o planejamento das culturas de inverno.
Economistas avaliam que os reflexos da guerra vão além do campo e atingem toda a cadeia econômica. O aumento do diesel impacta fretes, distribuição de alimentos, fertilizantes, defensivos agrícolas e produtos industrializados, podendo pressionar a inflação e elevar custos para consumidores e empresas.
Para tentar reduzir os impactos da crise, o governo federal anunciou medidas de compensação, incluindo subsídios para importação e comercialização do diesel, além da redução de tributos federais sobre o combustível.
Em março, uma medida provisória liberou R$ 10 bilhões em subsídios para o setor. Paralelamente, decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva zerou as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, medida que, segundo o governo, pode reduzir em até R$ 0,32 o preço do litro nas refinarias.
Também foi criado um programa para incentivar os estados a reduzirem o ICMS sobre o diesel importado, enquanto uma nova subvenção de R$ 0,80 por litro foi anunciada para o diesel produzido no Brasil.
Mesmo com as medidas, especialistas apontam que a instabilidade internacional continua pressionando o mercado de combustíveis e mantendo elevado o risco de novos impactos econômicos sobre o Rio Grande do Sul e o restante do país.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
