A previsão de formação do fenômeno El Niño durante o segundo semestre de 2026 acende um alerta para o setor pecuário, especialmente na Região Sul do Brasil, onde os efeitos do excesso de chuvas costumam ser mais intensos. Especialistas apontam que o aumento das precipitações pode comprometer a produção nas propriedades rurais, elevar os custos de alimentação dos rebanhos e favorecer o surgimento de doenças, exigindo planejamento antecipado por parte dos produtores.
Um estudo elaborado pelos pesquisadores Natália Grigol, Giovanni Penazzi e Thiago Carvalho, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), destaca que o excesso de chuva provoca encharcamento do solo, dificulta o manejo das pastagens, reduz a qualidade das forragens conservadas e amplia os problemas sanitários nos rebanhos.
Além dos impactos sobre as pastagens, o levantamento aponta que as condições climáticas também podem afetar a produção de grãos utilizados na alimentação animal, como milho e soja, provocando oscilações nos preços de insumos como farelo de soja, silagem e feno. Com isso, os custos de produção tendem a aumentar. Outro desafio previsto é a dificuldade de transporte causada por estradas alagadas ou em más condições de trafegabilidade.
Segundo a médica-veterinária e fiscal estadual agropecuária Raquel Cannavô, a influência do clima é percebida em praticamente todas as etapas da atividade pecuária.
“Essa incerteza climática causa uma instabilidade na agropecuária, porque o clima interfere em tudo. Ele vai interferir na sanidade, no manejo, na produção da propriedade e nas pastagens”, explica.
A especialista ressalta que o excesso de umidade reduz a qualidade das áreas de pastejo e dificulta o manejo dos animais.
“Ele reduz a qualidade das pastagens por causa do excesso da chuva. Isso favorece o pisoteio dos animais, diminui a oferta de forragem de qualidade e aumenta a ocorrência de lama”, afirma.
Com a perda de qualidade das pastagens, muitos produtores precisam ampliar a suplementação alimentar para manter o desempenho dos rebanhos. Nos sistemas de confinamento, além da alta dos custos com alimentação, surgem dificuldades logísticas para o abastecimento das propriedades.
Outro efeito preocupante é o aumento dos problemas sanitários. A combinação entre lama constante e solos encharcados favorece a proliferação de parasitas e enfermidades.
“Aumenta a incidência de verminose, de doenças e de problemas de casco. A alta umidade e a lama constante acabam favorecendo dermatites e outras enfermidades”, destaca Raquel.
Como o El Niño poderá se estender até o verão, o calor associado à elevada umidade também representa um risco à produtividade dos animais. Segundo a veterinária, em vez de direcionarem energia para a produção de leite ou ganho de peso, os animais passam a utilizá-la para controlar a temperatura corporal.
“Ao invés de gastar energia para a produção de leite, eles estão tentando compensar por causa do calor”, explica.
Nas propriedades leiteiras, os reflexos podem ser ainda mais significativos. Conforme a especialista, vacas submetidas ao estresse térmico podem registrar redução entre 10% e 30% na produção de leite, além de apresentar queda na fertilidade e maior predisposição ao desenvolvimento de doenças.
Para reduzir os impactos do fenômeno, a orientação é que os produtores invistam em medidas preventivas antes da chegada dos períodos de maior intensidade das chuvas.
“Eles têm que investir em planejamento alimentar, conforto térmico, manejo sanitário e drenagem adequada das instalações. Tudo isso tem um custo, mas ajuda a evitar perdas futuras”, orienta.
Entre as principais estratégias recomendadas estão a formação de estoques de alimentos para os rebanhos, o monitoramento permanente da saúde dos animais, a ampliação da oferta de sombra e água e melhorias na infraestrutura das propriedades, com foco na drenagem e na redução do acúmulo de lama nas áreas de manejo.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Foto: Ranie de Araújo Erthal
Fonte: Correio do Povo
