A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta quinta-feira (13), a Operação Criptoabate, que investiga uma organização criminosa suspeita de aplicar o chamado “golpe do abate de porcos” e lavar dinheiro por meio de empresas, contas bancárias e criptoativos. A ação cumpre 90 ordens judiciais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo e já resultou na prisão de dois investigados.
A investigação teve início após uma mulher de aproximadamente 70 anos, moradora de Porto Alegre, denunciar um prejuízo superior a R$ 37 milhões em uma suposta plataforma de investimentos. Segundo a polícia, os recursos eram provenientes de uma herança e de rendimentos acumulados em investimentos anteriores.
A partir da denúncia, registrada em fevereiro de 2025, os investigadores identificaram uma estrutura financeira com movimentações consideradas atípicas superiores a R$ 30 bilhões e pelo menos 140 potenciais vítimas relacionadas à mesma dinâmica criminosa.
Ao todo, são cumpridos 10 mandados de prisão preventiva, 16 mandados de busca e apreensão, além de bloqueios de contas bancárias e outras medidas cautelares contra oito investigados. Entre os alvos estão três proprietários de instituições financeiras que atuam na conversão de moeda fiduciária para criptoativos, dois estrangeiros, sendo um deles também proprietário de uma dessas empresas, e uma gerente de uma instituição financeira tradicional, suspeita de facilitar a abertura de contas utilizadas pelo grupo.
A Polícia Civil não divulgou os nomes dos investigados nesta fase da operação.
Segundo a investigação, a organização era dividida em diferentes núcleos responsáveis pela captação das vítimas, abertura e controle de empresas e contas bancárias, movimentação dos valores e conversão dos recursos em criptoativos. Também foram identificados indícios de facilitação do esquema dentro do sistema financeiro e utilização de “laranjas” para a abertura de empresas e contas.
Vítima perdeu mais de R$ 37 milhões
A principal vítima identificada na investigação é uma mulher de cerca de 70 anos, residente em Porto Alegre. Conforme a Polícia Civil, ela perdeu mais de R$ 37 milhões, valor que havia recebido por meio de uma herança e acumulado com rendimentos de investimentos anteriores.
De acordo com o delegado Eibert Moreira, responsável pela investigação, a vítima já possuía experiência no mercado financeiro e mantinha seus recursos em uma corretora legítima, com acompanhamento de um profissional de investimentos.
Segundo a polícia, a mulher tinha um perfil considerado agressivo e buscava aplicações com maior rentabilidade, mesmo após receber recomendações para evitar aportes elevados em investimentos de maior risco.
Após ser convencida pelos criminosos, a vítima retirou os recursos que mantinha na corretora e transferiu o dinheiro para a falsa plataforma de investimentos. Com isso, perdeu o patrimônio proveniente da herança e os rendimentos acumulados ao longo dos anos.
Como funcionava o golpe
A estratégia investigada é conhecida internacionalmente como “golpe do abate de porcos”, ou “pig butchering”. A modalidade consiste em conquistar gradualmente a confiança da vítima para induzi-la a realizar transferências cada vez maiores para uma suposta plataforma de investimentos.
Conforme a Polícia Civil, as vítimas eram inseridas em grupos de mensagens que simulavam comunidades legítimas voltadas ao estudo e aos investimentos no mercado financeiro. Nesses grupos, supostos especialistas, assistentes e outros participantes atuavam de forma coordenada para transmitir credibilidade ao esquema.
Os criminosos apresentavam análises de mercado, orientações financeiras e resultados aparentemente positivos, fazendo com que as vítimas acreditassem que seus investimentos estavam gerando lucros. À medida que a confiança aumentava, os valores transferidos também cresciam.
Quando a vítima tentava retirar o dinheiro, porém, os valores eram bloqueados. Em seguida, surgiam novas cobranças, apresentadas como taxas, impostos ou valores necessários para liberar o suposto patrimônio. A cada pagamento, novas exigências poderiam ser feitas, mantendo a vítima na expectativa de recuperar o dinheiro investido.
Segundo o delegado Eibert Moreira, o grupo trabalhava de maneira discreta e buscava vítimas principalmente por meio de indicações.
“É bem low profile. Algumas pessoas são cooptadas a partir do perfil, mas não há uma publicidade ampla”, explicou o delegado.
Movimentações superiores a R$ 30 bilhões
Durante a investigação, a Polícia Civil identificou empresas que apresentavam movimentações financeiras incompatíveis com o faturamento e a atividade econômica declarados.
Em uma das estruturas analisadas, foram identificados aproximadamente R$ 295 milhões em movimentações realizadas em um único dia, envolvendo a conversão de moeda fiduciária para criptoativos.
Considerando pessoas físicas e jurídicas relacionadas à investigação, as transações consideradas atípicas ultrapassam R$ 30 bilhões. A Polícia Civil ressalta que esse montante não corresponde ao prejuízo causado às vítimas e não significa que todos os valores tenham origem criminosa. A cifra representa o volume de movimentações consideradas atípicas dentro do universo financeiro analisado pelos investigadores.
Suspeita de facilitação dentro do sistema financeiro
Outra frente da investigação aponta para uma possível facilitação do esquema dentro do sistema financeiro. Entre os alvos da operação está uma profissional vinculada a uma instituição bancária, suspeita de atuar em procedimentos relacionados às contas utilizadas pela organização.
A Polícia Civil identificou que, entre os primeiros destinatários empresariais dos valores transferidos pela principal vítima, 24 dos 25 possuíam contas na mesma instituição financeira.
Os investigadores também encontraram indícios de recrutamento de “laranjas” para figurarem formalmente como titulares de empresas e contas bancárias. Segundo a apuração, essas pessoas forneciam documentos, fotografias, credenciais digitais e realizavam procedimentos de validação biométrica.
Após a abertura das contas, os investigadores suspeitam que elas poderiam passar a ser controladas por integrantes da organização.
A Operação Criptoabate busca atingir diferentes etapas do esquema, desde a abordagem das vítimas até a movimentação, ocultação e conversão dos valores obtidos por meio das fraudes. A investigação continua com a análise do material apreendido, identificação de possíveis novos envolvidos e localização de bens e valores que possam ser recuperados.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: Correio do Povo
