Um estudo inédito divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (1) traçou um amplo retrato dos impactos provocados pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024. A Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS) estima que 6.333.727 moradores foram afetados pelo maior desastre climático da história do Estado, que deixou 185 mortos, 23 desaparecidos e centenas de municípios em situação de emergência ou calamidade pública.
Segundo o levantamento, aproximadamente 2.328.093 domicílios estavam localizados nas áreas atingidas pelas inundações. Entre essas residências, 55,5% apresentaram algum tipo de dano estrutural, enquanto 88% registraram algum impacto causado pelas enchentes, sendo as interrupções no fornecimento de água e energia elétrica os problemas mais frequentes, ambos relatados por 66,3% dos entrevistados.
Além dos prejuízos materiais, o estudo aponta que os efeitos emocionais da tragédia continuam presentes mais de um ano após o desastre. Em 67,5% dos domicílios pesquisados, ao menos um morador relatou impactos na saúde mental decorrentes das enchentes. Na Região Intermediária de Porto Alegre, esse percentual chegou a 73,3%, o maior registrado no Estado.
A pesquisa também avaliou a situação física das residências após as inundações. Conforme o IBGE, 81.272 domicílios (3,5%) foram considerados destruídos, enquanto 190.253 imóveis (8,2%) sofreram danos severos, totalizando 11,7% das residências classificadas em situação de máxima precariedade.
Entre os principais reflexos enfrentados pela população após o desastre, destacam-se a interrupção da vida social e da convivência com familiares e amigos, registrada em 58,4% dos domicílios; a dificuldade de deslocamento para o trabalho, escola ou creche, em 57,3%; problemas para acesso aos serviços de saúde, em 36,9%; impactos na saúde física, em 13,1%; e perda ou danificação de documentos, em 12,9% das residências pesquisadas.
O levantamento também analisou o alcance do auxílio financeiro concedido pelo poder público às famílias atingidas. Segundo o IBGE, 484.221 domicílios, o equivalente a 20,8% do total, informaram que ao menos um morador recebeu algum benefício entre abril e maio de 2024. Entre as residências que sofreram danos estruturais, 88,7% receberam esse tipo de auxílio.
Ao avaliar a qualidade de vida após as enchentes, o estudo constatou que 24,9% dos moradores relataram piora nas condições de vida, enquanto 17,3% afirmaram perceber melhora e 56,5% disseram que a situação permaneceu inalterada.
Os entrevistados também apontaram perda na qualidade de diversos serviços públicos após o desastre. Os maiores índices de insatisfação foram registrados no escoamento da água da chuva (29,3%), seguido pelo transporte coletivo (23,2%), acesso aos serviços de saúde (22,3%), fornecimento de água (17,7%) e esgotamento sanitário (17,2%).
A coleta de dados foi realizada entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026, por meio de entrevistas telefônicas assistidas por computador, método utilizado pela primeira vez pelo IBGE em uma pesquisa domiciliar dessa dimensão. A amostra contemplou 30 mil domicílios distribuídos em 133 municípios afetados pelas enchentes.
De acordo com o instituto, os resultados servirão de base para o planejamento de políticas públicas voltadas à prevenção, resposta rápida e mitigação dos impactos de futuros eventos climáticos extremos.
As enchentes de abril e maio de 2024 foram consideradas o maior desastre hidrometeorológico já registrado no Brasil. Segundo dados da Defesa Civil Estadual, 418 dos 497 municípios gaúchos decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública, cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas e, em algumas localidades, o acumulado de chuva ultrapassou 500 milímetros nos primeiros 13 dias de maio, provocando inundações históricas, deslizamentos de terra e enormes prejuízos à infraestrutura, à economia e à população do Rio Grande do Sul.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
