AGRO l Aqui, no interior do Rio Grande do Sul, quando aparece uma neblina em pleno janeiro ou fevereiro, sempre tem um vivente que solta:
“Bueno… isso é sinal de estiagem braba pela frente.”
Mas será que é mesmo?
Primeiro, vamos entender a tal da neblina. Ela se forma quando o ar perto do chão esfria e atinge alta umidade relativa, fazendo o vapor d’água se transformar em gotículas suspensas. Mesmo em pleno verão, isso pode acontecer durante a madrugada, quando a temperatura cai um pouco e o vento fica mais calmo. Ou seja: neblina não é sinônimo de ar seco, pelo contrário, ela precisa de umidade para se formar.
Agora entra o detalhe interessante. No verão gaúcho, especialmente em janeiro e fevereiro, a chuva costuma vir em forma de pancadas convectivas, aquelas típicas de calor e abafamento. Quando temos períodos com céu limpo, noites mais estáveis e pouca circulação de frentes frias, pode sim aparecer neblina ao amanhecer. E esses períodos mais estáveis muitas vezes estão associados a bloqueios atmosféricos, que dificultam a chegada de sistemas de chuva.
Então, existe fundamento?
Parcialmente.
A neblina em si não “causa” estiagem. Mas ela pode ser um indicativo de que estamos sob uma condição atmosférica mais estável, e estabilidade prolongada no verão pode significar redução nas chuvas. O que os antigos observavam, na verdade, era o padrão do tempo como um todo. A neblina era apenas um dos sinais.
A sabedoria popular, nesse caso, não é pura crença. É observação empírica acumulada ao longo de décadas de lida no campo. O agricultor, o pecuarista, o homem e a mulher da campanha sempre aprenderam a ler o céu, o vento, o comportamento dos bichos e a formação das nuvens. Eles não falavam em “bloqueio atmosférico”, mas sabiam que “o tempo firmou demais”.
Em anos de fenômenos como La Niña, por exemplo, o verão no Sul do Brasil costuma ser mais seco e quente. Nessas situações, períodos prolongados de estabilidade são mais frequentes, e, sim, pode haver mais madrugadas com neblina localizada.
Resumindo na linguagem bem campeira:
Neblina no verão não é decreto de estiagem. Mas pode ser um recado de que o tempo está mais parado que água de açude em calmaria. Se essa estabilidade se prolongar, aí sim a chuva pode demorar a dar as caras.
No fim das contas, a ciência e o saber antigo não brigam, se complementam. A meteorologia explica os mecanismos. A tradição percebe os sinais.
E como diria qualquer gaúcho atento ao horizonte:
“Não é só a neblina… é o conjunto da obra.”
Por: Márcio Ücker – Meteorologista e especialista em agronegócio
