Cerca de 500 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) ocuparam, na madrugada desta segunda-feira (9), uma área de aproximadamente 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro) no município de São Gabriel, na Região da Campanha do Rio Grande do Sul.
A ação integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem-Terra, realizada entre os dias 8 e 12 de março, período em que o movimento promove mobilizações em diversas regiões do país. As atividades envolvem mulheres de acampamentos e assentamentos e têm como objetivo denunciar o que o MST considera ser a paralisação da Reforma Agrária no Brasil.
Com o lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”, o movimento também pretende chamar a atenção, no Rio Grande do Sul, para a necessidade de o governo estadual retomar as negociações de áreas destinadas a assentamentos e reassentamentos de famílias.
Segundo a integrante da direção nacional do MST, Lara Rodrigues, o movimento aguarda uma definição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do governo do Estado após uma série de reuniões realizadas ao longo do último ano. Entre as demandas está o reassentamento de famílias atingidas pelas enchentes de maio de 2024.
De acordo com a dirigente, a ocupação também representa um posicionamento do movimento em relação à proposta discutida anteriormente com o governo estadual. “Com essa ocupação, queremos dizer ao governador que aceitamos a proposta do assentamento nas áreas da Fepagro. Já podemos ir para lá com as famílias acampadas do Rio Grande do Sul”, afirmou.
O MST destaca ainda o caráter simbólico de São Gabriel dentro da trajetória da luta pela terra no estado. O município ficou marcado pela marcha realizada em 2003 e também pela morte do integrante do movimento Elton Brum da Silva, em 21 de agosto de 2009, durante uma ação de reintegração de posse em uma fazenda da região.
Atualmente, São Gabriel conta com 10 assentamentos rurais, reunindo mais de 740 assentadas e assentados. Segundo dados do próprio movimento, cerca de 100 produtores participam do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) voltado ao abastecimento de quartéis e cooperativas. Aproximadamente 250 famílias produzem leite, grãos, feijão, milho, arroz, mel e carne, além de alimentos para subsistência e comercialização em feiras locais, muitas delas organizadas por mulheres.
Além da reivindicação por áreas para assentamentos, o MST informou que pretende destinar cerca de 10 hectares da área ocupada para a criação de um espaço de acolhimento e geração de renda para mulheres. A proposta inclui atendimento a mulheres vítimas de violência e a criação de atividades produtivas que possibilitem autonomia financeira.
A integrante da coordenação nacional do movimento, Sílvia Marques, afirmou que a iniciativa também busca reforçar a mobilização do movimento feminista contra a violência de gênero. Segundo ela, o estado já registrou mais de 20 casos de feminicídio em 2026, o que reforça a necessidade de espaços de apoio e proteção.
Durante a jornada de mobilização, além da pauta da reforma agrária, as mulheres do movimento também defendem o combate ao feminicídio, o fim da escala de trabalho 6×1, igualdade salarial e a valorização da Política Nacional do Cuidado.
O governo do Rio Grande do Sul foi procurado para se manifestar sobre a ocupação da área da Fepagro em São Gabriel, mas até o fechamento desta reportagem não havia se pronunciado. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento do Executivo estadual.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
