Passados mais de dois anos das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, o cenário ainda revela uma dura realidade: promessas feitas por autoridades durante a tragédia seguem, em grande parte, sem cumprimento. Em meio a discursos e visitas oficiais que marcaram o período, muitos moradores continuam sem respostas concretas, vivendo em condições precárias e aguardando soluções que não chegaram.
Durante e após a calamidade, políticos percorreram as áreas atingidas, em agendas amplamente divulgadas. No entanto, hoje, o contraste entre a visibilidade daquele momento e a situação atual é evidente. Casas prometidas ainda não foram entregues, famílias permanecem em abrigos improvisados ou em contêineres disponibilizados pelo governo, e o auxílio anunciado não alcançou todos que dele necessitam.
A tragédia deixou marcas profundas. Segundo dados da Defesa Civil, atualizados até agosto de 2025, foram confirmadas 185 mortes, enquanto 23 pessoas seguem oficialmente desaparecidas. Mais de 700 dias depois, as buscas físicas foram encerradas por falta de novos indícios, conforme o Corpo de Bombeiros Militar do RS, que esgotou os meios disponíveis após operações intensas por terra, água e ar, com apoio de cães farejadores.
Apesar disso, as investigações continuam. O delegado Mário Souza, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, afirma que os casos permanecem abertos. Segundo ele, qualquer nova informação pode levar à retomada das buscas, embora reconheça que, com o passar do tempo, a possibilidade de encontrar sobreviventes se torna cada vez mais remota.
A ausência de respostas também se reflete no campo jurídico. Sem provas materiais, não é possível declarar oficialmente a morte dos desaparecidos, o que mantém famílias em um limbo emocional e legal, sem encerramento ou justiça.
Enquanto isso, cresce a indignação diante da lentidão na reconstrução e da falta de efetividade das ações públicas. Em comparação com países que enfrentam desastres frequentes e conseguem respostas rápidas, a realidade gaúcha evidencia falhas estruturais, burocracia excessiva e, sobretudo, falta de prioridade.
A tragédia que mobilizou o país e gerou comoção nacional também expôs outro problema: a exploração da dor alheia para fins de visibilidade. Além de agentes públicos, houve registros de influenciadores que utilizaram a situação para engajamento, inclusive com denúncias de falsas doações.
Dois anos depois, o que deveria ser um processo de reconstrução consolidado ainda é, para muitos, uma espera sem prazo. Entre promessas não cumpridas e respostas insuficientes, permanece a sensação de abandono, e a cobrança por responsabilidade segue cada vez mais forte.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
