A eclosão do caso envolvendo o Banco Master nos últimos três meses fez ressurgir no Supremo Tribunal Federal (STF) um ambiente de antagonismo e desconfiança entre ministros. Revelações sobre ligações suspeitas entre Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro ampliaram a tensão interna e provocaram desgaste na imagem da Corte, especialmente diante de movimentos interpretados como tentativas de blindagem contra investigações.
Decisões consideradas heterodoxas aprofundaram o mal-estar. Toffoli teria atuado para controlar os rumos das apurações, enquanto Moraes determinou medidas para reagir a vazamentos de informações sigilosas. Nos bastidores, ministros passaram a encaminhar recados à imprensa, sob anonimato, com críticas e desabafos sobre a condução dos episódios.
O momento mais sensível ocorreu após reunião reservada em que os ministros decidiram afastar Toffoli da relatoria do inquérito relacionado ao Master. No dia seguinte, o site Poder360 divulgou reportagem com relatos detalhados das falas atribuídas aos participantes. À Folha de S.Paulo, integrantes da Corte insinuaram que Toffoli poderia ter gravado e vazado trechos que o favoreciam. O ministro negou a acusação e declarou estar indignado com a suspeita.
O afastamento ocorreu após o vazamento de conversas do celular de Vorcaro que mencionariam pagamentos de R$ 35 milhões a uma empresa ligada à família de Toffoli, no contexto da venda do resort Tayayá, no interior do Paraná. O episódio ampliou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse.
Outra frente de desgaste surgiu após operação de busca e apreensão determinada por Moraes contra servidores da Receita Federal suspeitos de acessar e vazar dados fiscais de ministros e familiares. A medida teria alcançado cerca de 100 pessoas. Parte dos integrantes do tribunal reclamou de não ter sido previamente informada sobre a iniciativa.
Em entrevista ao jornal O Globo, um ministro, sob reserva, levantou dúvidas sobre as motivações da operação. Moraes abriu investigação sigilosa dentro do inquérito das fake news para apurar o suposto vazamento de dados fiscais, após reportagem apontar evolução patrimonial de sua esposa entre 2023 e 2024. A Receita Federal instaurou auditoria para rastrear acessos considerados imotivados a informações protegidas, o que também alimentou desconfianças internas.
Paralelamente, a proposta do presidente do STF, Edson Fachin, de instituir um código de ética interno encontrou resistência entre parte dos colegas. A discussão ocorre em meio a questionamentos antigos sobre a atuação de parentes de ministros em escritórios de advocacia com causas nos tribunais superiores. Em 2023, o STF decidiu permitir que magistrados julguem processos envolvendo clientes de escritórios nos quais atuem familiares, desde que não haja participação direta na causa, decisão que gerou críticas.
Conflitos públicos entre ministros já marcaram outros momentos da Corte. Durante o julgamento do mensalão, o então relator Joaquim Barbosa protagonizou embates com colegas como Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Em 2018, um desentendimento entre Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes ganhou repercussão nacional.
Entre 2019 e 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o STF apresentou maior coesão interna diante de críticas e ataques públicos. A união foi reforçada após os atos de 8 de janeiro de 2023, quando a sede da Corte foi invadida e depredada. Com o avanço do caso Master e o surgimento de novos vazamentos, as divergências voltaram à tona.
Pesquisa da Quaest divulgada em 12 de fevereiro indica que 82% dos brasileiros defendem a adoção de um código de ética para os ministros do STF. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 5 e 9 de fevereiro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, refletindo o impacto da crise na percepção pública sobre a credibilidade da Corte.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
