A Cooperativa Cotribá, considerada a cooperativa agrícola mais antiga do Brasil, convocou seus associados para uma assembleia geral extraordinária no dia 20 de outubro. A reunião deverá discutir a possibilidade de dissolução da entidade e abertura de um processo de liquidação, diante da crise financeira que levou a cooperativa a acumular dívidas de aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
O comunicado foi divulgado nesta sexta-feira (9) pelo presidente da Cotribá, Sergio Strentzke, que assumiu o comando da entidade após a saída de Carlos Diehl, no fim de setembro. A assembleia também deverá deliberar sobre a nomeação de um liquidante, responsável por conduzir o processo, caso a proposta seja aprovada.
Prevista na legislação do cooperativismo, a liquidação não representa necessariamente o encerramento imediato das atividades. Se aprovada, a Cotribá poderá continuar operando durante o processo, mas deverá acrescentar a expressão “em liquidação” à sua denominação social.
A modalidade extrajudicial também permite que a cooperativa negocie diretamente com os credores um plano de pagamento das dívidas, sem necessidade de homologação judicial. Nesse modelo, porém, a adesão dos credores às condições propostas é voluntária.
Poderes do liquidante e negociação de dívidas
A assembleia deverá definir os poderes concedidos ao eventual liquidante, incluindo a possibilidade de buscar recursos financeiros, renegociar dívidas e negociar ativos da cooperativa.
Entre as propostas estão autorizações para contratar empréstimos e financiamentos com instituições financeiras nacionais e internacionais, incluindo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e o Badesul, agência de fomento do governo gaúcho.
Também estão previstas operações vinculadas aos programas Fundopem-RS e Integrar-RS, além da renegociação de obrigações financeiras. Os associados deverão avaliar ainda a possibilidade de securitização de direitos creditórios do agronegócio por meio da emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).
O liquidante poderá receber autorização para comprar e vender bens, negociar imóveis e realizar operações de locação e sublocação de imóveis, bens móveis e equipamentos. As medidas buscam ampliar os instrumentos disponíveis para administrar o patrimônio e reorganizar os compromissos financeiros da cooperativa.
Uma eventual liquidação também poderá ter reflexos sobre Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) emitidos pela Cotribá e o Fiagro Cotribá, gerido pela Eco Gestão de Ativos e administrado pelo Banco Daycoval.
Tentativas de recuperação judicial foram barradas
Nos últimos meses, a Cotribá tentou recorrer à recuperação judicial para enfrentar a crise. Entretanto, a Justiça do Rio Grande do Sul reverteu, em segunda instância, decisões favoráveis à cooperativa em primeiro grau.
No início de setembro, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu, por unanimidade, ao analisar um recurso apresentado pelo Banco Santander, que a Cotribá não tem legitimidade para solicitar recuperação judicial.
A liquidação extrajudicial já havia sido rejeitada anteriormente pelos antigos gestores da cooperativa, o ex-presidente Carlos Diehl e o ex-CEO Paulo Goulart. Em entrevista ao AgFeed, em abril, Goulart afirmou que considerava inviável essa alternativa, argumentando que ela poderia gerar um passivo elevado e dificultar o acesso ao mercado de capitais.
Agora, a Cotribá avalia uma alternativa semelhante à adotada pela Cooperativa Piá, de Nova Petrópolis, que aprovou a liquidação extrajudicial neste ano, após acumular pelo menos R$ 249,2 milhões em dívidas.
Crise financeira e mudanças na gestão
As dificuldades financeiras da Cotribá ganharam maior visibilidade há cerca de um ano, quando produtores rurais passaram a cobrar publicamente pagamentos de valores devidos pela cooperativa.
Naquele período, o então presidente Celso Krug, que estava no cargo desde 1993, renunciou alegando motivos de saúde. O vice-presidente Enio Cezar Moura do Nascimento assumiu a função até a eleição de Carlos Diehl, em março deste ano.
A gestão voltou a passar por mudanças recentemente. Diehl deixou a presidência no fim de setembro, sendo substituído pelo então vice-presidente Sergio Strentzke. Em agosto, o CEO Paulo Goulart também havia deixado o cargo, após seis meses na função.
Em maio, as dívidas da cooperativa somavam R$ 1,4 bilhão, envolvendo mais de 30 bancos e cooperativas de crédito, além de mais de uma centena de produtores rurais. A assembleia do dia 20 de outubro deverá definir os próximos passos para o futuro da Cotribá.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: AgFeed
