A apicultura gaúcha, historicamente uma das duas mais relevantes do Brasil ao lado da produção paranaense, projeta ampliar sua presença no mercado da União Europeia a partir do acordo comercial firmado entre o bloco europeu e o Mercosul. O entendimento reacende expectativas do setor, especialmente em um momento de incertezas nas exportações para os Estados Unidos, principal destino do mel brasileiro.
Atualmente, o Brasil produz cerca de 60 mil toneladas de mel por ano, das quais aproximadamente 60% são destinadas ao mercado externo, enquanto os 40% restantes abastecem o consumo interno. Os Estados Unidos concentram entre 75% e 80% dos embarques brasileiros. No entanto, desde agosto do ano passado, o produto passou a sofrer uma sobretaxa de 50%, o chamado “tarifaço”, que tende a impactar negativamente as vendas ao longo deste ano, já que os contratos de 2025 haviam sido fechados antes da entrada em vigor da medida.
Diante desse cenário, a Europa surge como alternativa estratégica. Hoje, o continente europeu responde por cerca de 15% das exportações brasileiras de mel, com destaque para a Alemanha, além da Inglaterra, que não integra a União Europeia. Com o novo acordo, a expectativa é ampliar essa participação, embora o acesso ao mercado europeu exija ajustes significativos por parte do setor produtivo.
Segundo o professor permanente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Aroni Sattler, integrante da Comissão Técnica Científica da Federação Apícola do Rio Grande do Sul (Fargs) e sócio-colaborador da Associação Gaúcha de Agricultores, as exigências europeias são rigorosas, especialmente no que diz respeito aos limites de resíduos aceitáveis no mel.
“Existe uma exigência muito grande, e isso tende a aumentar, principalmente quanto ao nível de resíduos. Essa é uma limitação, porque ainda temos alguns problemas relacionados ao uso de dessecantes e fungicidas”, explica Sattler. Ele ressalta que esses produtos são aplicados em lavouras agrícolas e não causam danos diretos às abelhas, mas podem deixar traços no mel quando os insetos coletam néctar de flores pulverizadas.
De acordo com o especialista, mesmo quando a contaminação é mínima e dentro dos limites tolerados pela legislação brasileira — muitas vezes sequer detectada pelos laboratórios nacionais —, ela pode ser considerada inaceitável pelas normas europeias. “São produtos que não matam as abelhas de forma aguda e, quando aplicados corretamente, não causam grandes problemas, mas o mercado europeu tem tolerâncias diferentes”, observa.
Barganha e barreiras comerciais
Sattler avalia que, além do aspecto técnico, há uma forte dimensão mercadológica nesse processo. Conforme o mel brasileiro passa a ganhar espaço na Europa, competindo com a produção local, surgem barreiras comerciais justificadas pelo rigor nos limites de resíduos.
“Quando o produto importado começa a ocupar mais espaço e prejudicar os produtores locais, acabam sendo impostas exigências ainda mais restritivas. Isso é uma forma de barganha que qualquer país pode utilizar”, analisa. Para ele, o desafio dos próximos anos será avançar na criação de normas mais robustas de controle de qualidade, capazes de atender às demandas externas e reduzir esse tipo de entrave.
O professor cita os recentes protestos de agricultores franceses contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul como exemplo da resistência corporativista de produtores locais frente à entrada de produtos mais competitivos, como o mel brasileiro. Ainda assim, ele considera que o cenário internacional oferece oportunidades, especialmente diante da redução da oferta de mel da Ucrânia, tradicional fornecedora do mercado europeu, em função da guerra com a Rússia.
Produção, produtividade e mercado interno
Além de atender às exigências europeias e acompanhar a expectativa de eventual retirada da sobretaxa norte-americana, o setor apícola brasileiro também precisa investir no aumento da produção e da produtividade. “Se conseguirmos produzir mais e elevar a produtividade, com mais quilos de mel por colmeia ao ano, teremos condições de concorrer melhor no mercado externo e, ao mesmo tempo, atender o mercado interno”, afirma Sattler.
Nesse contexto, o segmento defende a inclusão do mel na merenda escolar, medida que poderia ampliar significativamente a demanda doméstica e fortalecer a cadeia produtiva.
No Rio Grande do Sul, a apicultura está presente em quase todos os municípios, tanto em propriedades de agricultores familiares, onde representa uma importante fonte de renda complementar, quanto entre apicultores profissionais, que operam com duas mil a três mil colmeias e são os principais responsáveis pelas exportações. Cada um desses perfis responde por cerca de 50% da produção estadual, que, em anos considerados normais, varia entre 8 mil e 9 mil toneladas.
Em 2025, a produção foi prejudicada por condições climáticas adversas, mas a expectativa para 2026 é de recuperação. “Tivemos uma primavera muito boa, e a expectativa é positiva para o fim do verão e o outono, especialmente com a safra do mel de soja nas regiões da Campanha, Missões e Planalto”, projeta Sattler. Ele também aponta boas perspectivas para outras áreas do Estado, como os Campos de Cima da Serra e a Metade Sul, reforçando o otimismo do setor para o próximo ciclo produtivo.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: Correio do Povo
