Entre 2015 e 2023, o Rio Grande do Sul apresentou avanços importantes no acesso à água potável. Em 2023, 86,4% da população gaúcha vivia em domicílios atendidos por rede de abastecimento de água, índice superior à média nacional, que ficou em 83,1%. No mesmo ano, o consumo médio diário por habitante no Estado chegou a 171,56 litros, acima do volume recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para suprir as necessidades básicas.
Apesar desse avanço, o saneamento básico ainda apresenta déficits estruturais e profundas desigualdades sociais e territoriais. Dados do último Censo Demográfico mostram que, no Brasil, 77,4% dos domicílios possuem acesso a soluções consideradas adequadas de esgotamento sanitário, como rede geral ou pluvial, fossa séptica ou fossa filtro. No Rio Grande do Sul, o percentual é superior à média nacional, alcançando 85% dos domicílios.
Mesmo assim, a coleta de esgoto segue como um dos principais gargalos. Em 2023, apenas 39,1% da população gaúcha tinha acesso à coleta de esgoto, índice bem abaixo da média brasileira, de 59,7%. Do volume coletado no Estado, 55,6% passou por tratamento, o que resultou em redução no total de efluentes efetivamente tratados, que caiu de 152,7 milhões de metros cúbicos em 2022 para 142,1 milhões em 2023. As perdas na distribuição de água tratada também aumentaram e chegaram a 40,1% do volume produzido.
A análise integra o Caderno ODS 6 – Água potável e saneamento, elaborado pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), com autoria da pesquisadora Amanda Comassetto Iensse. O documento reúne indicadores das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, com base em fontes estaduais e nacionais, permitindo acompanhar, até 2030, as condições de acesso à água e ao saneamento no Rio Grande do Sul, além das desigualdades associadas a esses serviços.
As disparidades socioeconômicas aparecem de forma consistente nos dados. No Rio Grande do Sul, trabalhadores com acesso ao saneamento básico apresentaram rendimento médio de R$ 3.414,87, enquanto aqueles sem o serviço tiveram renda média de R$ 2.605,77, uma diferença de 31%. Em nível nacional, a desigualdade é ainda maior, com rendimentos 54,5% superiores entre pessoas atendidas por saneamento. A escolaridade também acompanha essa diferença: no Estado, moradores de domicílios com saneamento têm, em média, 9,61 anos de estudo, contra 7,74 anos entre aqueles sem acesso ao serviço.
Os impactos na saúde pública seguem concentrados em grupos específicos. Em 2023, o Rio Grande do Sul registrou 6.482 internações hospitalares relacionadas a doenças de veiculação hídrica. As mulheres representaram 51,6% dos casos. Crianças de zero a 14 anos somaram 2.063 internações, enquanto pessoas com 60 anos ou mais corresponderam a 32,1% do total, com 2.080 registros.
O estudo também destaca o uso da água pela agricultura irrigada. A irrigação, especialmente a rizicultura, é responsável pelos maiores volumes de retirada de água no Estado. Em 2020, a retirada destinada à irrigação alcançou 384,7 metros cúbicos por segundo, volume mais de seis vezes superior à soma dos demais usos — urbano, rural, industrial e animal — que totalizaram 58,6 m³/s. Em nível nacional, a irrigação também lidera a demanda hídrica, respondendo por 52,9% da retirada total estimada em 2.813 m³/s em 2022. Projeções da Agência Nacional das Águas (ANA) indicam que os usos setoriais devem crescer cerca de 30% até 2040, aumentando a pressão sobre os mananciais, cenário agravado no Rio Grande do Sul pelas elevadas perdas na distribuição.
As desigualdades municipais seguem elevadas. Em 2023, 110 municípios gaúchos registraram cobertura de água superior a 95%, enquanto 115 atenderam menos da metade da população com água tratada. No esgotamento sanitário, 386 municípios, o equivalente a 77,7% do total, não possuíam coleta de esgoto ou não disponibilizaram informações sobre o serviço. No Ranking do Saneamento 2024, o Rio Grande do Sul teve quatro cidades entre as 100 melhores do país: Porto Alegre (44ª), Caxias do Sul (62ª), Canoas (79ª) e Pelotas (81ª), número inferior ao observado em anos anteriores.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
