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    Início » O charuto, o uísque e a República em combustão
    Editorial

    O charuto, o uísque e a República em combustão

    Fernando KopperFernando Kopper19 de setembro de 202604 Mins Read1

    Por: Fernando Kopper – jornalista

    Há momentos em que a realidade dispensa qualquer roteirista. Basta uma fotografia.

    Na última terça-feira (15), diante do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que não mantinha relação de proximidade com Daniel Vorcaro. Disse que havia encontrado o banqueiro uma única vez, em abril de 2024, em uma ocasião que reunira outras autoridades. Também classificou como “brevíssima e banal” uma ligação telefônica intermediada por um advogado.

    A declaração parecia destinada a colocar um ponto final na questão.

    Só que a Polícia Federal encontrou uma fotografia.

    E não é exatamente uma fotografia burocrática de corredor, aperto de mão ou cerimônia oficial. É uma imagem de Londres, com Gonet sentado ao lado de Vorcaro, acompanhado de outros homens, em uma mesa onde aparecem copos de uísque. E, para tornar a cena ainda mais cinematográfica, Gonet surge fumando um charuto.

    Convenhamos: se a República fosse uma novela, o diretor provavelmente mandaria refazer a cena por considerá-la exagerada demais.

    O problema não é o charuto. O problema não é o uísque. O problema não é sequer uma fotografia ao lado de um banqueiro. O problema é a distância entre a imagem que agora aparece e a descrição de uma relação apresentada dias antes como um encontro isolado, institucional e sem proximidade.

    A fotografia, sozinha, não demonstra irregularidade. Isso precisa ser dito com toda clareza.

    Mas também não transforma automaticamente em irrelevante tudo aquilo que veio antes.

    Segundo a Polícia Federal, a fotografia foi enviada a Vorcaro pelo advogado Ciro Soares em junho de 2025, acompanhada da mensagem: “PG me mandou”. Há ainda outras mensagens nas quais Soares aparece se apresentando ao banqueiro como interlocutor de Gonet.

    Eis o ponto que deveria interessar à República: não se trata de fabricar culpa a partir de uma fotografia. Trata-se de exigir explicações suficientemente claras para que uma autoridade do mais alto escalão do Ministério Público não deixe no ar a impressão de que a história foi contada em capítulos.

    Primeiro, um encontro.

    Depois, uma ligação “brevíssima e banal”.

    Agora, uma fotografia.

    A esta altura, o cidadão pode até se perguntar se o conceito de “não ter proximidade” ganhou uma definição nova nos dicionários oficiais.

    Talvez tudo tenha uma explicação perfeitamente legítima. Talvez aquele encontro tenha sido exatamente aquilo que Gonet afirma. Talvez a fotografia seja apenas o registro de uma ocasião social sem qualquer consequência institucional.

    Mas então que se explique.

    Com precisão.

    Sem rodeios.

    Sem a velha dança semântica em que uma autoridade diz exatamente o necessário para responder à pergunta formulada, mas deixa outras cinco perguntas nascendo pelo caminho.

    Porque a República não funciona apenas com leis, cargos, gabinetes e discursos solenes. Ela depende, sobretudo, de confiança.

    E confiança não sobrevive bem quando uma declaração pública precisa ser constantemente confrontada com novas fotografias, mensagens extraídas de celulares e versões que vão aparecendo depois.

    O caso fica ainda mais delicado porque estamos falando do procurador-geral da República. Não de um comentarista de televisão, não de um empresário, não de um cidadão qualquer. É justamente de quem ocupa uma das posições mais relevantes do sistema de Justiça que se espera o máximo de transparência.

    E é aí que a cena de Londres se torna quase uma caricatura.

    O procurador-geral, o banqueiro, a mesa, os copos, o charuto.

    Enquanto isso, do lado de fora da fotografia, está o cidadão brasileiro, aquele que assiste a uma sucessão de episódios envolvendo dinheiro, poder, autoridades, advogados, bancos e encontros reservados e que, no fim, recebe a recomendação informal de acreditar que tudo não passa de coincidência.

    Pode até passar.

    Mas ninguém deveria exigir que a sociedade desligasse o senso crítico.

    Porque o que está em jogo não é o direito de Gonet de sentar-se à mesa com quem quiser, beber o que quiser ou fumar o que quiser. É algo muito maior: a credibilidade da instituição que ele representa.

    E, nesse quesito, cada explicação importa.

    Cada omissão pesa.

    Cada contradição cobra seu preço.

    A República já tem problemas demais para precisar também de uma coluna de fumaça de charuto para enxergar o que está acontecendo.

    No fim, talvez o charuto seja mesmo apenas um charuto.

    Mas, quando quem segura o charuto é o procurador-geral da República, sentado ao lado de um banqueiro no centro de uma crise que envolve a própria República, talvez seja razoável perguntar, sem medo e sem reverência excessiva, quem acendeu a fumaça e por que agora ela está chegando aos olhos de todo mundo.

    A República está morrendo a passos largos.

    E o mais preocupante é que, enquanto ela perde pedaços de sua credibilidade, alguns de seus protagonistas parecem confortavelmente sentados à mesa, com o copo servido e o charuto aceso.

    Fernando Kopper

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