O cenário das ferrovias no Rio Grande do Sul é marcado pelo abandono de trechos, baixa operação e incertezas quanto ao futuro da chamada Malha Sul, cuja concessão atual, sob responsabilidade da Rumo desde 1997, se encerra em 2027. Diante disso, o governo federal incluiu a ferrovia no pacote de concessões previsto para 2026, propondo uma nova modelagem que prevê a divisão da malha em diferentes corredores logísticos.
Apesar do avanço do cronograma, ainda não há definição clara sobre o formato final da operação, o que tem gerado preocupação entre representantes do setor produtivo, autoridades estaduais e especialistas em infraestrutura. O principal temor é que a fragmentação da malha afaste investidores de trechos menos atrativos, agravando ainda mais o histórico de abandono.
A Malha Sul abrange, além do território gaúcho, os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, sendo considerada estratégica para o escoamento da produção e redução de custos logísticos. No entanto, no Rio Grande do Sul, a realidade é de sucateamento: dos cerca de 3,8 mil quilômetros existentes na década de 1990, apenas 921 quilômetros seguem operacionais, concentrados principalmente no eixo entre Cruz Alta e Rio Grande.
A situação foi agravada pelas enchentes que atingiram o Estado em maio de 2024, comprometendo ainda mais a infraestrutura ferroviária e elevando os custos logísticos. Estimativas da Agência Nacional de Transportes Terrestres apontam que a recuperação dos trechos danificados pode chegar a R$ 2 bilhões.
O novo modelo de concessão, apresentado pelo Ministério dos Transportes, prevê a divisão da malha em três corredores: Paraná-Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mercosul. A proposta inclui contrato de 35 anos, investimento estimado de R$ 2,8 bilhões e capacidade de transporte de até 5,7 milhões de toneladas por ano apenas no trecho gaúcho, cujo edital deve ser lançado em setembro, com leilão previsto para dezembro.
No entanto, lideranças industriais e entidades, como a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, defendem a manutenção da integração da malha ferroviária como forma de garantir escala e competitividade. Para o setor, a fragmentação pode comprometer a conexão com a malha nacional e reduzir o interesse econômico de determinados trechos.
Além disso, críticas recaem sobre a atual concessão, apontada como insuficiente em investimentos e manutenção ao longo das últimas décadas. Representantes sindicais e técnicos destacam que diversos trechos estão desativados há mais de 15 anos, com estruturas deterioradas e até retirada de trilhos em algumas regiões.
Outro ponto de preocupação é o impacto econômico e logístico do abandono ferroviário. Com a redução da capacidade do modal, houve aumento da dependência do transporte rodoviário, elevando custos, riscos de acidentes e sobrecarga nas estradas.
Diante desse cenário, audiências públicas realizadas em cidades como Santa Maria, Rio Grande, Cruz Alta, Uruguaiana e Santiago têm reunido autoridades, especialistas e representantes do setor produtivo para debater alternativas. Entre as principais demandas estão a reconstrução dos trechos danificados, a retomada de regiões atualmente desassistidas e a definição de um modelo de concessão que garanta investimentos e integração logística.
O relatório final de uma comissão especial da Assembleia Legislativa do Estado recomenda a modernização da infraestrutura ferroviária, a reintegração da malha ao sistema nacional e a ampliação da participação do modal no transporte de cargas com destino ao porto de Rio Grande.
Enquanto o prazo para o fim da concessão se aproxima, o futuro das ferrovias gaúchas segue indefinido, em meio a um debate que envolve desenvolvimento econômico, logística e competitividade regional.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
