Dois dos policiais, Sandro Urubata Acosta e Anderson Azambuja de Souza, estão presos preventivamente no Presídio Policial Militar. Já Anderson Nascimento da Silva e Nathan Fraga Leon respondem ao processo em liberdade. Nesta quarta-feira (28), às 14h, o Tribunal de Justiça Militar julga o habeas corpus dos dois militares que permanecem detidos.
Áudio sem imagens
De acordo com o Ministério Público (MP), a câmera corporal de um dos policiais estava com a lente intencionalmente obstruída, o que impediu o registro de imagens da ação. Apesar disso, o equipamento continuou gravando o áudio, que, conforme a acusação, captou sons compatíveis com agressões físicas, sufocamento com sacola plástica, uso de arma de choque e ameaças graves.
As gravações teriam registrado cerca de 23 minutos de violência. Em um dos trechos descritos pelo MP, um homem clama para que a tortura cesse, enquanto vozes atribuídas aos policiais perguntam repetidamente “onde está a PT”, gíria usada para se referir a uma pistola.
Em outro momento, segundo a denúncia, um dos policiais teria ameaçado:
“A próxima vai ser na tua mulher, tua ‘nega véia’. Vamos ficar até amanhã”.
Diante da ausência de respostas, outra frase atribuída a um policial teria sido registrada:
“Agora é sessão de horrores”.
Invasão durante a madrugada
O episódio teria ocorrido na madrugada de 1º de agosto de 2025, no bairro Lami, na Zona Sul da capital. Conforme a denúncia do MP, os policiais, que estavam em escala de serviço, teriam invadido uma residência sem mandado judicial, arrombando a porta com chutes e um objeto metálico enquanto um casal e a filha dormiam.
Após a entrada no imóvel, os militares teriam ido até o quarto, rendido o homem e iniciado agressões com spray de pimenta, além de ameaças para que ele indicasse o paradeiro de uma arma de fogo.
Retirada forçada e torturas
Sem obter respostas, a vítima teria sido retirada à força da residência, colocada no porta-malas de uma viatura e levada para diferentes pontos da Zona Sul de Porto Alegre. Em um desses locais, segundo o MP, o homem foi submetido a novas sessões de tortura.
Posteriormente, os policiais teriam retornado com a vítima à residência, onde novas agressões físicas e psicológicas teriam ocorrido enquanto os militares realizavam buscas por armas, drogas e dinheiro no imóvel.
Em seguida, o homem teria sido novamente levado de viatura até uma área de matagal, onde, conforme a denúncia, sofreu tortura com disparos de arma de incapacitação neuromuscular, chutes e agressões com pedaços de pau. Dois tiros de arma de fogo também teriam sido disparados próximos à vítima como forma de intimidação.
Laudos periciais anexados ao processo apontam equimoses, escoriações e hematomas em diversas partes do corpo, compatíveis com as agressões descritas na investigação.
Cárcere privado da companheira
Enquanto o homem era levado pelos policiais, a companheira dele teria permanecido dentro da residência, supostamente impedida de sair. Conforme o MP, um dos militares ficou no local mantendo a mulher em cárcere privado, com o objetivo de evitar que ela buscasse ajuda.
O Ministério Público sustenta que os quatro policiais agiram em conjunto, estavam de serviço no momento dos fatos e cometeram os crimes para aplicar castigo pessoal ou obter informações.
Questionamentos da investigação
A denúncia foi assinada pela promotora de Justiça Anelise Haertel Grehs, que destacou não ter ficado claro, ao longo da investigação conduzida pela Corregedoria da Brigada Militar, qual seria o real interesse dos policiais em relação à pistola mencionada nas ameaças.
Versões das defesas
As defesas negam as acusações. O advogado Márcio Rosano, que representa Sandro Urubata Acosta e Anderson Azambuja de Souza, afirma que a inocência dos policiais “já está sendo provada na instrução processual”, sustentando que imagens de vídeo e declarações prestadas em juízo pelas próprias vítimas indicariam que não houve violência durante a abordagem.
Já o advogado Jairo Cutinski, defensor de Anderson Nascimento da Silva, afirma que seu cliente não teve contato físico com nenhuma das vítimas, motivo pelo qual responde ao processo em liberdade.
Por fim, o advogado Giliar Pires, que defende Nathan Fraga Leon, declarou que seu cliente atuava apenas como motorista da viatura, permaneceu majoritariamente em via pública e não participou dos atos descritos na denúncia.
O caso segue em tramitação na Justiça Militar e aguarda novas decisões judiciais.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte: Portal News/Renê Leal/GZH
