Por Nelson José Weber
Assim, como não nos preparamos e nem mesmo se espera pela morte, mas algum dia, ela fatalmente haverá de bater à porta, também durante toda vida militar, não nos preocupamos com a data de irmos para a reserva e esse dia, mais cedo ou mais tarde, sempre chega.
Quando, pela última vez pendura-se a velha farda já surrada no cabide, aquele gesto corriqueiro, tão banal, tantas vezes repetido e até então sem significado, passa a se revestir de toda uma importância, quase um cerimonioso ritual, vagaroso, interminável, na cadência das lembranças que insistem em querer relembrar toda uma vida de dedicação e compromissos.
Como em transe, aquele pano velho passa a simbolizar o teu histórico, tua vida e tua essência. Quando olhas para a farda no cabide, encontras o espelho que reflete tudo aquilo que pretendestes e realmente fostes, enquanto militar. É o testemunho, que sempre te acompanhou, nas missões, que dia após dia, cumpristes.
Após este último depósito no guarda-roupa, ela parece mais pesada, talvez revestida de todo um simbolismo, memória ou o próprio registro histórico de tua existência. Entre as tramas do tecido verde-oliva entremeiam vultos, causos, vivências e personagens, que irão povoar a nossa mente, até o fim de nossos dias. Essas reminiscências continuarão a nos acompanhar em sonhos nas madrugadas, saudosas recordações em rodas de velhos camaradas ou até pesadelos, que insistirão em nos atormentar, independentes de nossas vontades.
Inexoravelmente, estaremos presos ao passado, que como uma sombra irá ainda nos perseguir. Essa profissão marca, mais do que qualquer outra. Te molda, cria cacoetes, impõe certa postura, enfim, gesta uma estampa que te difere dos demais mortais. Penduras a farda, mas ela não te deixa. A farda é um fardo, que terás que carregar eternamente. Ali nesta mochila imaginária, invisível aos paisanos, encontram-se virtudes, deveres e valores, próprios dos que ombrearam na caserna. Não foi nossa intenção, mas um dia após sucessivas atividades castrenses, repentinamente acordamos diferentes, pois gradativamente fomos incorporando a índole militar.
E quando olhamos para a farda pendurada pela última vez, percebemos a grandeza de seu brilho, privilégio este, talvez apenas visto por aqueles que tiveram a honra de um dia vesti-la…
