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    Início » Tropeiros refazem caminhos históricos no Sul do RS em jornada de mil quilômetros até Vacaria
    Cultura

    Tropeiros refazem caminhos históricos no Sul do RS em jornada de mil quilômetros até Vacaria

    Fernando KopperFernando Kopper29 de dezembro de 202505 Mins Read5

    Desde o dia 18 deste mês, um grupo de tropeiros percorre a região Sul do Rio Grande do Sul em uma jornada que une resistência física, memória e identidade cultural. Montados a cavalo, enfrentando sol, chuva e longas distâncias diárias, eles seguem rumo a Vacaria (RS), em um trajeto que deve ultrapassar mil quilômetros e que refaz antigos caminhos do tropeirismo, atividade fundamental para a formação econômica, social e cultural do Estado e do Brasil.

    Na manhã de sábado (27), a comitiva realizou uma parada na divisa do município do Rio Grande com Santa Vitória do Palmar, onde foi recepcionada pelo Executivo Municipal e pelo Sindicato Rural local. Representando a Prefeitura, esteve presente o secretário de Relações Institucionais e Comunitárias, Cláudio Costa. Já o setor produtivo foi representado pelo presidente do Sindicato Rural, Leandro Cruz Freitas.

    Para o secretário Cláudio Costa, a recepção institucional simboliza o reconhecimento do poder público à importância histórica do movimento. “Estamos valorizando esse caminho tropeiro que eles estão refazendo, algo que foi essencial para a economia rio-grandina e da região nos anos de 1700, com o arrebanhamento de gado que passava por aqui”, destacou.

    A próxima parada do grupo está prevista para a terça-feira (30), quando os tropeiros chegam ao Sindicato Rural do Rio Grande. No local, serão recepcionados pela direção da entidade, por CTGs do município e também pela prefeita Darlene Pereira. A passagem de final de ano da comitiva será no Rio Grande. Após isso, o grupo segue em direção a São José do Norte, dando continuidade ao longo trajeto rumo aos Campos de Cima da Serra.

    Resgate histórico e identidade cultural

    A passagem dos tropeiros representa mais do que uma travessia territorial. Trata-se de um resgate histórico de uma prática que remonta ao início do século XVIII e que teve papel decisivo no desenvolvimento do Rio Grande do Sul. “Estamos falando da primeira atividade econômica vinculada ao município do Rio Grande, iniciada por volta de 1700 e pouco. A pecuária foi, e segue sendo, uma das grandes alavancas econômicas da nossa região”, afirmou o presidente do Sindicato Rural.

    Segundo ele, o tropeirismo está diretamente ligado à origem do agronegócio no Estado. Naquele período, o gado vinha principalmente da região da Colônia do Sacramento, hoje território uruguaio, passava pela chamada Vacaria del Mar e seguia até Sorocaba (SP), onde aconteciam grandes feiras e leilões. “Hoje fazemos isso com caminhões e estradas, mas esse movimento nasceu a cavalo”, explicou.

    Além do resgate histórico, o movimento também se conecta com o futuro do campo. O presidente do sindicato ressaltou as ações de incentivo à permanência dos jovens na atividade rural, por meio de comissões jovens e femininas e parcerias com o Senar, que oferece mais de 140 cursos gratuitos voltados ao meio rural.

    Associação Crina e a liderança da tropeada

    A liderança do grupo é exercida por Adalberto Rodrigues Clavijo, de 63 anos, morador de Santa Vitória do Palmar e um dos fundadores da Associação Cultural Sociedade Crioula Nativista, conhecida como “Crina”, criada em novembro de 2024. Ele conta que a ligação com o tropeirismo vem da infância, vivida na região do Albardão e da Praia do Hermenegildo.

    “Ou a gente se adaptava à tropa, ou não sobrevivia. O gado se espalhava por quilômetros, e às vezes levávamos dez dias só para reunir uma tropa”, relembrou.

    A tropeada atual teve início no Passo do Chuí e segue até o 36º Rodeio de Vacaria, passando por diversos municípios do Estado. O grupo é formado por 12 tropeiros, que conduzem nove cavalos e duas mulas, percorrendo entre 20 e 38 quilômetros por dia, conforme as condições do terreno. Um caminhão de apoio acompanha a comitiva, transportando alimentação, equipamentos e camas. Entre os integrantes, chama atenção a presença constante do cachorro “Russo”, sem raça definida, que acompanha o grupo por todo o percurso.

    Segundo Clavijo, o tropeirismo no Rio Grande do Sul tem cerca de 300 anos de história, com figuras marcantes como Cristóvão Pereira de Abreu, responsável por estruturar as primeiras rotas comerciais de gado e subprodutos. “Essas tropas vinham pelo litoral, passavam por Rio Grande, São José do Norte, Mostardas, Santo Antônio da Patrulha, subiam a serra e seguiam até Sorocaba. É essa história que estamos trazendo de volta”, afirmou.

    Continuidade e projeção futura

    Para os integrantes, a iniciativa vai além do simbolismo. Trata-se de uma verdadeira tropeada, conceito histórico que envolve transporte, troca de mercadorias, circulação de saberes e fortalecimento de vínculos entre comunidades. Em cada município, prefeituras entregam souvenires que são levados e repassados adiante. “Isso também é tropeirismo: levar um pouco de cada cidade para a outra”, explicou Clavijo.

    A preocupação com a continuidade do movimento é um dos pilares do projeto. Um jovem de apenas 16 anos participa da atual tropeada após ter conhecido a iniciativa em palestras realizadas em escolas da região do Chuí. “Ele passou de ano por média e essa era a condição. Conseguimos apoio e hoje ele está conosco. É um jovem atento, interessado e que certamente dará sequência a esse trabalho”, destacou o líder.

    O movimento já começa a ganhar projeção regional. Há tratativas para a criação de uma associação de tropeirismo em nível regional, envolvendo municípios da Zona Sul e da Fronteira Sul. Além disso, a articulação dos tropeiros resultou na criação do Dia do Tropeiro em diversos municípios. No Rio Grande, a data foi instituída por lei, com apoio do Legislativo, sendo celebrada em 22 de abril.

    Rota Tropeira de Cultura e Turismo

    A iniciativa abre espaço para um projeto ainda mais amplo: a criação da Rota Tropeira de Cultura e Turismo, ligando os Campos Neutrais aos Campos de Cima da Serra. “Essa rota não é nossa, é de todos. Pode ser percorrida a pé, de bicicleta, a cavalo, de moto ou de carro. O importante é preservar o caminho, a história e a identidade que ele carrega”, concluiu Clavijo.

    Com informações: Jornalista Fernando Kopper
    Fonte e fotos: Prefeitura de Rio Grande

    Fernando Kopper

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