Desde o dia 18 deste mês, um grupo de tropeiros percorre a região Sul do Rio Grande do Sul em uma jornada que une resistência física, memória e identidade cultural. Montados a cavalo, enfrentando sol, chuva e longas distâncias diárias, eles seguem rumo a Vacaria (RS), em um trajeto que deve ultrapassar mil quilômetros e que refaz antigos caminhos do tropeirismo, atividade fundamental para a formação econômica, social e cultural do Estado e do Brasil.
Na manhã de sábado (27), a comitiva realizou uma parada na divisa do município do Rio Grande com Santa Vitória do Palmar, onde foi recepcionada pelo Executivo Municipal e pelo Sindicato Rural local. Representando a Prefeitura, esteve presente o secretário de Relações Institucionais e Comunitárias, Cláudio Costa. Já o setor produtivo foi representado pelo presidente do Sindicato Rural, Leandro Cruz Freitas.
Para o secretário Cláudio Costa, a recepção institucional simboliza o reconhecimento do poder público à importância histórica do movimento. “Estamos valorizando esse caminho tropeiro que eles estão refazendo, algo que foi essencial para a economia rio-grandina e da região nos anos de 1700, com o arrebanhamento de gado que passava por aqui”, destacou.
A próxima parada do grupo está prevista para a terça-feira (30), quando os tropeiros chegam ao Sindicato Rural do Rio Grande. No local, serão recepcionados pela direção da entidade, por CTGs do município e também pela prefeita Darlene Pereira. A passagem de final de ano da comitiva será no Rio Grande. Após isso, o grupo segue em direção a São José do Norte, dando continuidade ao longo trajeto rumo aos Campos de Cima da Serra.
Resgate histórico e identidade cultural
A passagem dos tropeiros representa mais do que uma travessia territorial. Trata-se de um resgate histórico de uma prática que remonta ao início do século XVIII e que teve papel decisivo no desenvolvimento do Rio Grande do Sul. “Estamos falando da primeira atividade econômica vinculada ao município do Rio Grande, iniciada por volta de 1700 e pouco. A pecuária foi, e segue sendo, uma das grandes alavancas econômicas da nossa região”, afirmou o presidente do Sindicato Rural.
Segundo ele, o tropeirismo está diretamente ligado à origem do agronegócio no Estado. Naquele período, o gado vinha principalmente da região da Colônia do Sacramento, hoje território uruguaio, passava pela chamada Vacaria del Mar e seguia até Sorocaba (SP), onde aconteciam grandes feiras e leilões. “Hoje fazemos isso com caminhões e estradas, mas esse movimento nasceu a cavalo”, explicou.
Além do resgate histórico, o movimento também se conecta com o futuro do campo. O presidente do sindicato ressaltou as ações de incentivo à permanência dos jovens na atividade rural, por meio de comissões jovens e femininas e parcerias com o Senar, que oferece mais de 140 cursos gratuitos voltados ao meio rural.
Associação Crina e a liderança da tropeada
A liderança do grupo é exercida por Adalberto Rodrigues Clavijo, de 63 anos, morador de Santa Vitória do Palmar e um dos fundadores da Associação Cultural Sociedade Crioula Nativista, conhecida como “Crina”, criada em novembro de 2024. Ele conta que a ligação com o tropeirismo vem da infância, vivida na região do Albardão e da Praia do Hermenegildo.
“Ou a gente se adaptava à tropa, ou não sobrevivia. O gado se espalhava por quilômetros, e às vezes levávamos dez dias só para reunir uma tropa”, relembrou.
A tropeada atual teve início no Passo do Chuí e segue até o 36º Rodeio de Vacaria, passando por diversos municípios do Estado. O grupo é formado por 12 tropeiros, que conduzem nove cavalos e duas mulas, percorrendo entre 20 e 38 quilômetros por dia, conforme as condições do terreno. Um caminhão de apoio acompanha a comitiva, transportando alimentação, equipamentos e camas. Entre os integrantes, chama atenção a presença constante do cachorro “Russo”, sem raça definida, que acompanha o grupo por todo o percurso.
Segundo Clavijo, o tropeirismo no Rio Grande do Sul tem cerca de 300 anos de história, com figuras marcantes como Cristóvão Pereira de Abreu, responsável por estruturar as primeiras rotas comerciais de gado e subprodutos. “Essas tropas vinham pelo litoral, passavam por Rio Grande, São José do Norte, Mostardas, Santo Antônio da Patrulha, subiam a serra e seguiam até Sorocaba. É essa história que estamos trazendo de volta”, afirmou.
Continuidade e projeção futura
Para os integrantes, a iniciativa vai além do simbolismo. Trata-se de uma verdadeira tropeada, conceito histórico que envolve transporte, troca de mercadorias, circulação de saberes e fortalecimento de vínculos entre comunidades. Em cada município, prefeituras entregam souvenires que são levados e repassados adiante. “Isso também é tropeirismo: levar um pouco de cada cidade para a outra”, explicou Clavijo.
A preocupação com a continuidade do movimento é um dos pilares do projeto. Um jovem de apenas 16 anos participa da atual tropeada após ter conhecido a iniciativa em palestras realizadas em escolas da região do Chuí. “Ele passou de ano por média e essa era a condição. Conseguimos apoio e hoje ele está conosco. É um jovem atento, interessado e que certamente dará sequência a esse trabalho”, destacou o líder.
O movimento já começa a ganhar projeção regional. Há tratativas para a criação de uma associação de tropeirismo em nível regional, envolvendo municípios da Zona Sul e da Fronteira Sul. Além disso, a articulação dos tropeiros resultou na criação do Dia do Tropeiro em diversos municípios. No Rio Grande, a data foi instituída por lei, com apoio do Legislativo, sendo celebrada em 22 de abril.
Rota Tropeira de Cultura e Turismo
A iniciativa abre espaço para um projeto ainda mais amplo: a criação da Rota Tropeira de Cultura e Turismo, ligando os Campos Neutrais aos Campos de Cima da Serra. “Essa rota não é nossa, é de todos. Pode ser percorrida a pé, de bicicleta, a cavalo, de moto ou de carro. O importante é preservar o caminho, a história e a identidade que ele carrega”, concluiu Clavijo.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte e fotos: Prefeitura de Rio Grande
