Ao todo, foram cumpridas 125 ordens judiciais, incluindo cinco mandados de prisão preventiva, 13 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Goiás, além do bloqueio de contas bancárias de 85 pessoas físicas e jurídicas. A Justiça também determinou o sequestro de veículos, o bloqueio de carteiras de criptoativos custodiados por 17 exchanges e outras medidas patrimoniais. Até o momento, três pessoas foram presas. Durante as diligências, foram apreendidos milhares de chips de telefonia, aparelhos celulares, computadores e veículos de luxo.
Segundo a delegada Isadora Galian, responsável pela investigação, o esquema criminoso apresentava alto grau de sofisticação e causou um prejuízo superior a R$ 4,3 milhões a uma única vítima gaúcha. Há indícios concretos de que pelo menos outras 40 pessoas em diferentes estados do país também tenham sido lesadas pelo mesmo grupo. A operação contou com o apoio das Polícias Civis de São Paulo e de Goiás, reforçando a atuação integrada no enfrentamento aos crimes cibernéticos.
As investigações tiveram início após o registro de ocorrência por uma vítima residente no Rio Grande do Sul, que relatou ter sido enganada por uma suposta empresa de consultoria especializada em investimentos. O primeiro contato ocorreu por meio de um anúncio patrocinado em uma rede social, que prometia alta rentabilidade no mercado de ações. Após demonstrar interesse, a vítima foi direcionada a um grupo em aplicativo de mensagens, composto por cerca de 65 a 88 participantes.
Nesse ambiente virtual, supostos investidores experientes e “professores” compartilhavam dicas financeiras, criando um cenário de credibilidade. A liderança do grupo era atribuída a um indivíduo que se apresentava como professor americano, empresário do ramo de investimentos e com formação acadêmica em universidade dos Estados Unidos, auxiliado por uma suposta assessora. Inicialmente, eram repassadas orientações legítimas sobre ações negociadas em plataformas nacionais, o que gerou ganhos reais e consolidou a confiança da vítima.
Em seguida, os criminosos induziram a migração para operações com criptomoedas, direcionando os investimentos para uma plataforma fraudulenta. Conforme explicou a delegada Isadora Galian, os valores eram transferidos via Pix para contas de diversas empresas e, posteriormente, apresentados como convertidos em criptoativos dentro da plataforma controlada pelo grupo. Os saldos e lucros exibidos eram artificialmente inflados para estimular novos aportes. Após ciclos de ganhos fictícios, ocorriam perdas súbitas e inexplicáveis, sempre atribuídas a supostos erros da própria vítima.
Na tentativa de recuperar os valores, a vítima era manipulada a realizar novos depósitos, inclusive mediante falsas garantias contratuais em um alegado “grupo VIP”, com promessas irreais de rentabilidade que chegavam a 6.000%. Em menos de um mês, durante maio de 2025, a vítima acabou transferindo o total de R$ 4.378.000,00 para o esquema criminoso.
O aprofundamento das investigações revelou uma organização criminosa estruturada em diferentes núcleos, com clara divisão de tarefas. O núcleo de captação de vítimas utilizava linhas telefônicas registradas em nome de terceiros, mas operadas a partir dos mesmos dispositivos, com ativação remota a partir do exterior, por meio de dados cadastrais vazados na internet. Já o núcleo de ativação de linhas telefônicas, conhecido como o “chipeiro”, era comandado por um investigado de São Paulo, responsável por habilitar milhares de números por dia para viabilizar os golpes, inclusive para serem utilizados por operadores localizados no Camboja, no sudeste asiático.
Outro braço da organização atuava na gestão e lavagem de capitais, por meio de empresas de fachada recentemente constituídas, com capital social incompatível com a realidade financeira dos sócios. Uma única empresa chegou a movimentar mais de R$ 2,2 milhões em menos de um mês. Havia ainda o núcleo responsável pela conversão dos valores em criptoativos, com transferências superiores a R$ 7 milhões em um único dia, utilizando stablecoins para dificultar o rastreamento. A análise dos Relatórios de Inteligência Financeira identificou padrões típicos de lavagem de dinheiro, como fracionamento de valores, circularidade de recursos e uso de “laranjas”.
Entre os alvos das prisões preventivas estão o responsável pela ativação das linhas telefônicas, apontado como fornecedor de chips para diversos golpes, o autor intelectual do esquema, um empresário do ramo digital de Goiás que ostentava vida de luxo nas redes sociais, além de integrantes dos núcleos financeiro e de lavagem de dinheiro.
Conforme a delegada Isadora Galian, a Operação Mirage representa apenas o início de uma investigação de maior amplitude. Os próximos passos incluem a identificação de todas as vítimas em âmbito nacional, o rastreamento e bloqueio de ativos enviados ao exterior, a cooperação internacional e o desenvolvimento de mecanismos para reparação dos prejuízos causados.
O nome da operação faz referência a algo que parece promissor à distância, mas se revela inexistente ao ser alcançado, conceito que traduz a essência do golpe. O diretor da Divisão de Repressão aos Crimes Cibernéticos, delegado Filipe Bringhenti, destacou que o grupo adotou o modelo conhecido como “crime as a service”, contratando especialistas em diferentes regiões e até fora do país para tornar o esquema altamente lucrativo. Segundo ele, a ação reforça que o ambiente digital não é território sem lei e que a Polícia Civil gaúcha seguirá atuando com rigor contra organizações criminosas que exploram a confiança e a busca por ganhos rápidos.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Fonte e foto: Polícia Civil
