Construído em 1914 pelo coronel Firmino, o antigo prédio da Intendência de Cruz Alta não é apenas uma edificação antiga. Ele representa um marco da formação política, administrativa e social do município, um símbolo concreto da memória coletiva que atravessou mais de um século. Tombado como patrimônio histórico, deveria ser tratado como herança viva. No entanto, hoje, o que se vê é um prédio com obras paralisadas, deteriorando-se lentamente no coração da cidade.
Há quase três anos, a comunidade acompanhou com expectativa o início da restauração. Os recursos chegaram, os tapumes foram erguidos e a promessa de recuperação reacendeu a esperança de ver o prédio devolvido à população com dignidade. Passado esse tempo, o cenário é de abandono. As intervenções foram interrompidas, e nenhuma conclusão foi apresentada de forma clara e objetiva à sociedade.
O que mais causa indignação não é apenas a lentidão, mas o silêncio. As autoridades públicas responsáveis pelo projeto não apresentam explicações, não divulgam prazos, não prestam contas aos munícipes. Um patrimônio tombado não pertence a um governo, mas à cidade. Quando uma obra dessa natureza fica parada, não se trata apenas de um atraso administrativo, mas de um desrespeito à história e à população.
Nesse contexto, surge uma pergunta inevitável: onde estão os representantes políticos de Cruz Alta? O município conta hoje com três deputados eleitos, dois federais e um estadual, que têm como dever institucional defender os interesses da cidade nas esferas estadual e federal. Diante de uma obra histórica paralisada, com recursos já destinados e riscos evidentes de perda patrimonial, a ausência de posicionamento público desses parlamentares também chama a atenção.
A atuação de deputados não se limita à destinação de emendas. Espera-se articulação política, cobrança aos órgãos responsáveis, acompanhamento técnico e, sobretudo, transparência com a comunidade que os elegeu. O silêncio dos representantes reforça a sensação de abandono e amplia a frustração dos munícipes que veem sua história se deteriorar sem respostas.
Enquanto isso, o prédio segue apodrecendo a olhos vistos. A exposição prolongada às intempéries, aliada à interrupção das obras, acelera a degradação da estrutura, aumenta os riscos de perda irreversível de elementos históricos e eleva os custos de uma futura retomada. Cada dia de descaso representa mais um capítulo de negligência com a memória urbana de Cruz Alta.
Preservar o patrimônio histórico não é um gesto simbólico, é um compromisso público. Exige planejamento, fiscalização e responsabilidade. A antiga Intendência não pode continuar sendo um monumento à inércia do poder público e à omissão política. A população tem o direito de saber por que a obra não avança, quais são os entraves reais e quando esse espaço histórico será, enfim, restaurado e devolvido à cidade.
Cruz Alta não pode aceitar que sua história se perca em silêncio. É preciso que autoridades municipais, estaduais e federais assumam suas responsabilidades. Antes que o tempo, sempre implacável, conclua aquilo que a falta de ação já começou.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
